Capítulo 812 – As Memórias de Zhang Ju
“No segundo dia da matrícula, já estou sendo perseguido por um professor e pulando o muro para fugir. Isso não é nada parecido com a vida universitária que eu imaginava!” Zhou Tu batia a poeira da roupa enquanto desamarrava a corda em volta da cintura.
“Daqui a pouco, podem aparecer coisas ainda mais inimagináveis para você.” Chen Ge puxou com força a corda que havia prendido no topo do muro, escondendo-a atrás da trepadeira. Mesmo que alguém passasse por perto, não a notaria sem olhar com atenção.
“Essa corda é minha rota de fuga.” Quando saiu do campus leste, Chen Ge estava sozinho; ao retornar, já era o responsável por um clube.
“Professor, você não notou algo estranho?” Zhang Ju endireitou o corpo, e os olhos escondidos em suas cicatrizes foram se abrindo lentamente.
“O que foi?”
“Talvez eu seja sensível demais, mas sinto que o ar deste lado do muro é mais denso, úmido, e tem um cheiro estranho, como se estivesse encharcado de sangue.” Zhang Ju falava as palavras mais estranhas com o tom mais calmo.
Ele abriu a boca devagar, a ponta da língua lambeu a cicatriz no lábio superior, e seus olhos transbordavam confusão e dúvida: “Comparado ao campus oeste, este lugar me parece mais familiar.”
“Você está brincando? Por acaso você conhece o cheiro de sangue?” Zhou Tu achava que Zhang Ju era apenas feio, mas ainda normal; ao ouvir aquelas palavras, passou a ter uma nova impressão dele.
“Não estou brincando, é verdade.” Zhang Ju olhou para Chen Ge, que estava parado no lugar, com um sorriso no rosto.
“Você não se enganou. Aqui é o solo fértil para cultivar sonhos belos. No mundo atrás da porta, só usando cadáveres e sangue como adubo é possível fazer florescer algo impressionante.”
Chen Ge colocou Wang Yicheng nas costas e fez sinal para Zhang Ju segui-lo: “Vou te levar a um lugar primeiro. Preste atenção: não faça barulho.”
Atravessando os arbustos sem cuidados, a noite se tornou a melhor camuflagem deles.
O caminho foi tenso, mas sem incidentes. Chen Ge levou Zhang Ju até o local onde estava a mulher fantasma do buraco na árvore.
“Este lugar parece familiar para vocês?” Chen Ge apontou para o buraco na árvore que escondia a cabeça da fantasma e para as árvores ao redor.
“Parece que já estivemos aqui... Não é a cena do crime onde a garota foi morta? Vimos no campus oeste! Por que o campus leste também tem um cenário idêntico?” Zhou Tu arregalou os olhos. Os dois cenários eram exatamente iguais, até na posição e ângulo da abertura do buraco.
“A cena do crime no campus oeste é só uma casca vazia. O corpo e a alma da vítima estão escondidos no campus leste. O que vocês veem agora é a verdadeira cena do crime.” Enquanto Chen Ge dizia isso, Zhang Ju parecia atraído por algo. Ele ficou sozinho ao lado do buraco na árvore, os ombros tremendo levemente.
“Zhang Ju?”
Ele parecia não ouvir a voz de Chen Ge. Lentamente, agachou-se, ajoelhou-se ao lado do buraco e enfiou as mãos trêmulas dentro dele.
“Ei! Você enlouqueceu? Lembro que a cabeça da garota foi encontrada nesse buraco! Por que você está colocando a mão aí?”
Zhou Tu tentou puxar Zhang Ju, mas Chen Ge o impediu: “Não o perturbe. Dentro daquele buraco estão as memórias dele. O que foi perdido precisa ser desenterrado por ele mesmo.”
“Desenterrado? Vocês estão realmente loucos!” Zhou Tu não tinha a força de Chen Ge e não conseguia se soltar, só podia ficar observando.
De joelhos no chão, Zhang Ju se debruçou sobre o buraco, os olhos fixos na escuridão, enquanto o braço mergulhava lentamente no interior.
Seu corpo tremia sem parar, o suor grudava nas cicatrizes do rosto, como lágrimas escorrendo.
“Não tem? Por que não tem? Por que não tem! Impossível!” Zhang Ju não encontrou nada. Sua voz era entrecortada, como se estivesse sem fôlego de tanta tensão: “Eu vi com meus próprios olhos! Vi ele esconder aquilo no buraco! Como pode não estar aqui!”
Os dedos arranhavam com força a terra e o tronco, as unhas começaram a sangrar, mas Zhang Ju não sentia dor. Sua expressão era feroz, enquanto cavava desesperadamente o fundo do buraco.
“Zhang Ju, você está procurando isto?” Chen Ge tirou da mochila um cutelo enferrujado. Era o objeto que guardava a alma da mulher fantasma do buraco. Depois que a sombra devorou a fantasma, encontrou-o no fundo do buraco (detalhes no capítulo 787). No começo, Chen Ge só queria o cutelo para se defender, sem pensar muito.
De repente, tudo ficou em silêncio. Todos os olhares se concentraram no cutelo.
“Este cutelo foi encontrado por mim no buraco. A alma enlouquecida da vítima está guardada nele.” ChenGe colocou o cutelo na frente de Zhang Ju: “Pegue-o. Você consegue se lembrar do seu passado?”
Zhang Ju já estava à beira do colapso. Seu braço tremia cada vez mais, as pupilas pulavam violentamente.
“Não é familiar? Você já viu esta faca em algum outro lugar? Naquela época, em quem ela estava? E no final, em quem ela cravou?” As palavras de Chen Ge eram como pregos perfurando a mente de Zhang Ju. Sua mão trêmula se estendeu para o cutelo. No instante em que a ponta do dedo tocou o cabo, sua expressão mudou drasticamente: as pupilas se contraíram, a boca se abriu, como se tivesse tocado um ferro em brasa.
Antes que Zhang Ju pudesse gritar, Chen Ge já havia tapado sua boca: “Calma, essas coisas já passaram. É só o seu passado.”
Enquanto consolava Zhang Ju, Chen Ge mantinha os olhos fixos na mão que segurava o cutelo. Se ele fizesse algum movimento de golpear, Chen Ge o imobilizaria imediatamente.
A força de Zhang Ju era muito maior do que Chen Ge imaginava. E, à medida que as memórias se soltavam, sua força continuava aumentando. Aquele garoto não era um fantasma comum.
Quando Chen Ge já estava prestes a perder o controle de Zhang Ju, ele finalmente se acalmou.
Chen Ge soltou a mão, e Zhang Ju caiu de joelhos no chão. Seus lábios roçavam a terra, e as cicatrizes no rosto pareciam ainda mais marcantes.
“Eu... eu me lembro de algumas coisas.” Zhang Ju olhou para as unhas quebradas: “Naquele dia era o aniversário do veterano. Uma garota queria se declarar para ele, mas ele já tinha namorada, então me pediu para ir recusá-la no lugar dele. Cheguei ao local combinado, mas não vi a garota. Fiquei esperando. Depois, ouvi barulhos vindo do bosque. Corri para ver e vi alguém segurando este cutelo...”
“A garota ainda estava lutando, mas eu não ousei sair. Fiquei paralisado de medo. Nunca tinha visto tanto sangue antes.” As unhas cavavam a terra, e as cicatrizes no rosto de Zhang Ju se amontoavam: “Se eu tivesse aparecido naquela hora, talvez a garota não tivesse morrido.”
A culpa e o remorso atormentavam Zhang Ju a cada instante. Ele apertou o cutelo: “Quando voltei para casa e liguei para a polícia, aquelas pessoas já tinham fugido. Não sei se foram pegas, mas vi uma silhueta muito familiar entre elas.”
“Na noite seguinte, bebemos muito, depois fomos cantar. Então houve um incêndio, fui levado ao hospital, e depois disso...” Zhang Ju começou a bater na própria cabeça: “Depois disso, o que aconteceu? Por que não tenho memórias do que veio depois?”
“Queimaduras, coma, hospital. Sua memória parou aí.” Chen Ge já sabia o passado de Zhang Ju.