Capítulo 743: Seu esforço para se encaixar parece especialmente solitário
Qu Changlin trabalhou três anos na casa assombrada e nunca imaginou que um dia passaria por isso.
Havia apenas alguns centímetros entre ele e aquele rosto. Ele conseguia ver cada detalhe claramente: os cantos da boca levemente erguidos, os pelos esparsos da barba e aqueles olhos que exalavam frieza a todo momento.
— Meu chefe quer ver você.
Os lábios do outro se abriram e fecharam, como se estivesse falando, mas Qu Changlin sentia que não ouvia som algum. Talvez os nervos responsáveis por transmitir o som já tivessem parado de funcionar, ou talvez seu cérebro tivesse perdido toda a capacidade.
Isso já não importava mais. Qu Changlin nem sequer pensou no motivo de haver alguém pendurado de cabeça para baixo atrás dele.
Seu coração só voltou ao normal dois segundos depois. O sangue subiu de uma vez para o cérebro e, conforme o corpo recuperava o controle aos poucos, Qu Changlin teve a reação que qualquer pessoa normal teria.
— Quem está aí!
As cordas vocais tremeram. Qu Changlin bateu a cabeça contra a porta à sua frente. O espelho fino foi empurrado, e ele tentou correr para fora, mas a porta do quarto cubículo foi fechada por alguém.
Preso naquele espaço apertado, Qu Changlin encostou as costas na porta do cubículo, os olhos fixos no esconderijo onde estava. No quarto escuro e estreito, não havia nada.
Segurando o peito, Qu Changlin tinha certeza de que tinha visto alguém. Aquela pessoa estava de cabeça para baixo, pendurada atrás dele!
— Para onde ele foi?
O que acabara de acontecer já se tornara um trauma psicológico para Qu Changlin. Se não esclarecesse aquilo, ele achava que nunca mais conseguiria ficar sozinho em um espaço fechado e escuro pelo resto da vida.
O ar-condicionado da casa assombrada estava ligado, a temperatura era muito baixa, mas a testa de Qu Changlin não parava de suar.
— A porta do cubículo está fechada. Essa pessoa ainda deve estar aqui.
As desgraças nunca vêm sozinhas.
Enquanto Qu Changlin pensava nessa questão séria, a porta do cubículo atrás dele foi subitamente batida por alguém.
Os sons de batida, "puf, puf", pareciam notas de uma música que anunciava a morte, mantendo um ritmo especial: uma batida, outra batida, como se estivessem batendo diretamente no coração de Qu Changlin, atravessando seu peito.
Ele queria se mover, mas suas pernas não obedeciam. Os pés estavam moles, sem força para sustentar o corpo. Apoiado na porta do cubículo, ele deslizou lentamente até sentar no chão.
Tudo foi muito repentino. A situação mudou num instante. Antes que ele entendesse o que estava acontecendo, já estava caído.
Havia uma pessoa a mais no esconderijo. Ele queria correr para fora, mas a porta do cubículo estava fechada. Sem saída, Qu Changlin percebeu que, sem perceber, tinha sido encurralado em um beco sem saída.
Ele empurrou o chão com as pernas, tentando se levantar: — Se quem está batendo na porta do cubículo é um visitante, então quem foi que eu vi agora há pouco?
Qu Changlin pressionou as costas firmemente contra a porta. Enfiou a mão no bolso, tentando encontrar o celular para relatar a situação ao chefe.
Mas assim que ligou, antes mesmo de falar, ouviu uma voz completamente estranha: — Se esconder não adianta. Ele vai te seguir para casa, se esconder na sua sombra, se deitar no seu parapeito, enfiar na sua cama...
A voz vinha de fora da porta. A pessoa que batia estava do outro lado da porta.
O outro não usou um tom exagerado para assustar Qu Changlin de propósito. A voz era muito calma, como se estivesse narrando um fato.
Qu Changlin tapou a boca. A ligação já estava feita, mas ele não ousava falar.
Ele sentia um olhar gelado fixado nele. Não ousava virar a cabeça, não ousava se mexer. O corpo parecia congelado.
— O que eu faço agora?
...
Chen Ge estava apoiado na divisória do quinto cubículo, olhando de cima para Qu Changlin, que se encolhia. Seus olhos estavam cheios de admiração.
— Ficar tanto tempo num banheiro fedorento sem máscara. Essa pessoa, seja pela ética profissional ou pela habilidade técnica, merece mais de oitenta pontos.
Com uma mão segurando a divisória, Chen Ge balançava com a outra o modelo de cadáver pendurado de cabeça para baixo no teto.
As batidas que Qu Changlin ouviu eram, na verdade, o som da cabeça do boneco batendo na porta.
A cabeça batendo na porta ritmicamente, claro, soava diferente de uma mão batendo.
Sem que o outro soubesse de nada, Chen Ge fez um teste simples e unilateral com ele.
— Capaz e dedicado. Só falta saber como é o caráter dele.
Enquanto Chen Ge pensava, o Velho Zhou apareceu silenciosamente atrás dele, segurando um grosso manual sobre a estrutura do corpo humano.
— O que é isso?
Ao abrir o manual, havia desenhos à mão de bonecos, de vários estilos e modelos.
— Havia uma luminária vermelha reserva da casa assombrada no depósito. Este manual estava debaixo dela. Parece que ele não queria que ninguém visse isso.
O Velho Zhou passava muito tempo com Chen Ge e conhecia muito bem seu chefe, por isso às vezes se mostrava especialmente atencioso.
Ouvindo o Velho Zhou, Chen Ge imaginou uma cena na mente: Qu Changlin, vestido como um monstro, sozinho no banheiro que raramente recebia visitantes, aprendia sozinho muitos conhecimentos sobre bonecos com a ajuda da luz da luminária vermelha.
A primeira metade do manual tinha desenhos do corpo humano e anotações feitas pelo próprio Qu Changlin; a segunda metade parecia mais um diário pessoal.
— Primeiro de setembro: Cada vez menos visitantes vêm à casa assombrada. Ouço pessoas passando pela porta, mas ninguém entra. Que tristeza.
— Terceiro de setembro: Melhorei os bonecos do banheiro. Com apenas mais cinquenta reais por boneco, posso dar aos visitantes uma sensação muito mais realista! Com certeza vão me olhar de outra forma!
— Quarto de setembro: Chuva gelada bate no meu rosto sem piedade. O chefe não aprovou meu plano de reforma. Deixa pra lá. A casa assombrada não vai bem, ele também está triste.
— Décimo quinto de setembro: Hoje finalmente entraram visitantes no banheiro! Deixa eu pensar como vou assustá-los! Ahahaha!
— Trigésimo de setembro: Xiao Die disse que quer focar na carreira por enquanto, não quer namorar. Parece que vou ter que me esforçar mais.
— Décimo quinto de outubro: Por que eles sempre dizem que sou uma pessoa sem graça? Para não parecer tão diferente, já fiz muitas coisas que não gosto. Como ainda acham que sou um estranho?
— Trigésimo de outubro: Então Xiao Die gosta é dele.
— Primeiro de novembro: Novo mês começando. Vou ser uma pessoa interessante e sociável. Força! Você consegue!
Havia muitos diários curtos como esses no manual. Cada um era otimista, mas Chen Ge sentia um amargor profundo neles.
Ele largou o manual e seu olhar varreu as palavras nas paredes do quinto cubículo.
Diferente do Terceiro Bloco de Doentes, as palavras aqui eram escritas à mão pelos próprios funcionários. O banheiro era a cena de responsabilidade de Qu Changlin, e todas aquelas palavras na parede eram de próprio punho.
A lenda do banheiro contava a história de uma criança chamada Xiao Lin que, por gostar de fazer travessuras, era odiada por todos. No final, todos decidiram pregar uma peça nele.
Uma história simples, mas que refletia o próprio Qu Changlin.
O Xiao Lin da história deveria ser ele mesmo.
— Nem todos os peixes vivem no mesmo oceano. Por que forçar?
Chen Ge pensou um pouco e decidiu não provocar mais Qu Changlin. Mandou o Velho Zhou devolver o manual, enquanto ele mesmo abria a porta do quarto cubículo.