Capítulo 656: Capítulo 656 Capítulo 642 Cão Preto

Capítulo 642: Cão Preto

Observando os fios de sangue que se contorciam perto do caixilho da janela e o pano branco manchado de sangue ao redor, Chen Ge achou que aquilo só poderia ter sido um massacre unilateral.

O garoto podia ser a existência mais aterrorizante do Hospital Liwan, com força no mínimo equivalente a um Vestido Vermelho pela metade, mas ainda assim era frágil diante do Salto Alto Vermelho. As manchas de sangue no pano branco e no caixilho da janela provavelmente eram dele.

"Então é por isso que o hospital estava tão vazio. Alguém chegou na minha frente." Chen Ge suspirou com pesar, fazendo os três atrás dele franzirem a testa.

"Eles brigando entre si é uma coisa boa! Quando você encontrou o fantasma, não estava se lamentando. Agora que estão se matando, você, que é de fora, fica insatisfeito?" O bêbado não conseguia entender Chen Ge de jeito nenhum. Ele não sabia que Chen Ge já considerava aquele lugar como sua propriedade. Pelo menos até o álbum de Yan Dayuan ficar cheio, ele não deixaria aqueles fantasmas em paz.

"Os fantasmas daqui não são maus por natureza, mas foram enganados pelo mandante das sombras. Não consigo suportar vê-los assim. Eles mereciam um destino melhor." Chenge revistou tudo mais uma vez e, só depois de confirmar que não havia mais nenhum fantasma no hospital, levou os outros embora.

"Para onde vamos agora?" O bêbado, o médico e a Tesoura seguiam Chen Ge. Sabiam que se separassem não teriam um bom fim, então preferiram ficar juntos.

"O Homem Sorridente massacrou um carro inteiro de pessoas e atrapalhou os planos do mandante das sombras de Liwanzhen. A relação entre ele e o mandante deve ser muito ruim. O Salto Alto Vermelho não é mais fraco que o Homem Sorridente, e já que atacou os nativos de Liwanzhen, claramente também não se dá bem com o mandante. Esses dois são os rebeldes problemáticos da Zona Leste. Agindo por conta própria, eles podem nos ajudar a desviar a atenção do mandante." Chen Ge analisava com calma. Por pior que fosse a situação, ele a transformava em algo diferente, como se eles estivessem em vantagem. "Sem pressa. Vamos primeiro dar uma olhada naquele canil que você mencionou. Estou muito curioso para ver como é um cachorro que sabe sorrir."

"Você realmente vai? Se eu soubesse, nem teria falado." O bêbado foi na frente, relutante.

O "canil" ficava perto do hospital. Ao se aproximarem do prédio, as expressões dos passageiros variavam.

O bêbado estava apreensivo, o médico cauteloso, a Tesoura fingia calma, e só Chen Ge, com o Martelo Esmagador de Crânios na mão, seguia sozinho para a frente, com um ar de quem mal podia esperar.

"É aqui?" Chen Ge empurrou o portão da escola. Mal tinha entrado, e o gato branco miou, inquieto. Parecia haver ali algo que ele detestava.

"Gatos têm medo de cachorro? Não deveria." Chen Ge acariciou a cabeça do gato branco para acalmá-lo.

"Irmão, é melhor você tomar cuidado. Aquele monstro é muito feroz. Eu o vi uma vez. Ele anda de quatro, como um cão de caça." O bêbado ia dizer mais, mas viu que Chen Ge já estava dentro do pátio e calou a boca na hora. "Esse cara é muito corajoso, hein?"

Na verdade, Chen Ge era bastante cauteloso, mas os outros não percebiam. Ele tinha a proteção de Xu Yin e o alerta do gato branco. Cada tentativa ousada tinha uma garantia absoluta por trás.

"Realmente tem um canil. Muito bem feito, mas..." Chen Ge colocou a mochila nas costas e ficou no canto do pátio, olhando para o canil que exalava um fedor. "Esse tamanho não é para um cachorro. O espaço interno é suficiente para caber uma pessoa."

"Quando entrei, também achei estranho. A casa inteira cheira a desodorizante. Um lugar onde pessoas moram parece uma casa de cachorro, e o lugar onde um cachorro deveria morar parece que um vivo também poderia habitar." O bêbado estava meio sem jeito. Só de pensar no que tinha acontecido, seu corpo tremia involuntariamente, a cabeça zumbia, como se fosse desabar a qualquer momento.

Para uma pessoa normal, essa reação era compreensível. Vendo o estado do bêbado, Chen Ge assentiu levemente.

Não era que ele concordasse com o que o bêbado dizia, mas sim que finalmente confirmava que o bêbado era uma pessoa comum.

Chen Ge vinha observando secretamente todos os passageiros do carro. Até agora, os que podiam ser considerados inocentes e sem problemas eram dois: o bêbado e a Tesoura.

"Tudo bem. Se você está com muito medo, fique com eles." Chen Ge atravessou o pátio e de repente sentiu uma coceira no pescoço. Levou a mão e encontrou alguns fios de pelo preto de cachorro, duros, meio espinhosos.

"De onde veio isso?" Olhando para cima, Chen Ge semicerrrou os olhos. Viu, na janela do segundo andar do sótão, o rosto de um homem.

O homem vestia uma pele de cachorro e tinha um sorriso estranho no rosto.

Chen Ge nunca tinha visto um sorriso assim. Não parecia algo que um humano pudesse fazer. A forma como os músculos faciais se moviam era completamente diferente, fazendo o rosto parecer projetado para a frente, muito desarmônico.

Ficou observando o rosto no segundo andar em silêncio. No começo, seu coração acelerou, mas depois de alguns segundos, voltou ao normal.

Levantou o braço e também sorriu para aquele rosto. "Fique aí, não se mexa. Já estou indo te encontrar."

Lá em cima, claramente era um homem, mas Chen Ge não sentia nele nenhum traço de um ser vivo.

"Liwanzhen é tão grande. Se eu for conferir cada prédio, o tempo vai ser curto." Chen Ge entrou no prédio de dois andares. Quando os outros iam segui-lo, ele acenou. "Fiquem aí fora."

"É melhor irmos todos juntos. Nessa hora, não seja herói!" O bêbado sabia da ferocidade do monstro e estava preocupado com Chen Ge.

"Tudo bem. Mas o espaço lá dentro é apertado. Não cheguem muito perto de mim, senão posso acabar machucando vocês sem querer." A frase involuntária do bêbado fez Chen Ge pensar que ele era uma pessoa decente, que valia a pena prestar atenção e tentar tirar vivo dali.

"Entendido. Não vamos te atrapalhar." O bêbado deu uma olhada no Martelo Esmagador de Crânios de Chen Ge e pensou: 'Esse cara é um verdadeiro louco, não tem medo de nada.'

Todos os passageiros entraram na casa. Andavam pelo corredor estreito, prontos para subir ao segundo andar, quando ouviram o som de um sino de vento. A porta, que estava entreaberta, fechou-se sozinha.

"Ferrou!" O bêbado e o médico olharam para trás ao mesmo tempo. A saída estava bloqueada.

Eles pararam. A Tesoura também não estava com boa cara. Com uma voz sombria, disse: "Essa é a cena mais clássica dos filmes de terror. A porta se fecha sozinha, geralmente significa que o fantasma está chegando. Pode estar ao nosso redor."

"Eu disse para não agir na impulsividade!" O bêbado estava começando a entrar em pânico. "Será que a gente não devia se esconder em algum cômodo? Somos muitos. O fantasma não deve atacar quatro pessoas ao mesmo tempo."

"Faz sentido." O médico concordou. Depois de discutirem, todos olharam para Chen Ge, esperando a opinião dele.

"Do que vocês estão falando? Por que se esconder? A porta fechou, é só abrir de novo, não?" Chen Ge balançou a cabeça. Não entendia o que se passava na cabeça dos outros passageiros.

O bêbado ia responder, mas Chen Ge não deu chance. Acelerou até a porta, ergueu o martelo e a arrombou.

O barulho foi enorme. Dava para ouvir em todo o prédio.

Depois de arrombar a porta, Chen Ge não parou. Continuou batendo na fechadura até arrancar a porta inteira.

"Agora ela não fecha mais." Chutou a porta deformada para o lado, arrastou o martelo e voltou para perto dos outros. "Não adianta ficar fugindo. É preciso aprender a analisar."

Chen Ge achava que a Tesoura tinha potencial e resolveu treiná-lo um pouco. "Eu vi aquele homem no segundo andar. Agora a porta do primeiro andar fechou sozinha. Isso significa que não tem só um fantasma nesta casa. Essa tal cena clássica de filme de terror na verdade pode nos dar muitas informações sobre os fantasmas. É preciso aprender a usá-las, extrair o que é útil para a gente."

Enquanto o som do sino de vento ecoava, como se alguém andasse pelo corredor, Chen Ge olhou para trás. "Às vezes, os fantasmas usam coisas comuns do dia a dia para despertar nosso medo, como aquele sino de vento. Nessa hora, o que temos que fazer é muito simples."

Chen Ge foi até a porta, tirou o sino de vento e o colocou na mochila.

Assim que o sino sumiu na mochila, o som estranho desapareceu completamente.

"Simples assim." Enquanto Chen Ge falava, o médico e o bêbado estavam chocados. Apontavam para trás dele.

"Irmão! Tem uma coisa nas suas costas! Saiu do sino de vento!"

"Fantasma! É um fantasma!"

Chen Ge virou a cabeça e viu um rosto cheio de rancor e ódio. O mais interessante é que aquele rosto era idêntico ao do homem do segundo andar.

Naquele momento, a metade inferior do homem estava dentro da mochila de Chen Ge, e a metade superior tentava desesperadamente sair. Mas inúmeras mãos saíram da mochila de Chen Ge, agarraram-no com força e o puxaram de volta para dentro.

A alma atormentada do homem desapareceu. Chen Ge virou a cabeça de volta e sorriu para os outros passageiros. "Isso foi só uma alucinação. É o segundo ponto que eu queria ensinar para vocês: os fantasmas costumam usar truques de ilusão para nos fazer duvidar de nós mesmos."

Os outros passageiros ficaram em silêncio. Para ser sincero, quando o fantasma apareceu, eles só sentiram medo. Mas quando viram o fantasma gritando e se debatendo enquanto desaparecia atrás de Chen Ge, sentiram um arrepio na espinha, um calafrio.

"Se vocês estão com tanto medo, fiquem no primeiro andar." Olhando para os desodorizantes espalhados pelo chão, Chen Ge não deu tempo para os outros pensarem. Subiu sozinho para o segundo andar.

O fantasma do sino de vento tinha o mesmo rosto do homem do segundo andar. Chen Ge imaginou que o fantasma era, na verdade, o verdadeiro dono daquele corpo. Mas, por alguma razão desconhecida, a alma do homem e a alma do cachorro tinham sido trocadas. Agora, quem controlava aquele corpo devia ser um cachorro.

"Isso é um conto interessante." Como presidente da Associação de Contos Assombrados, Chen Ge sentia que tinha o dever de colecionar todos os contos.

Chegou ao segundo andar, chamou Xu Yin para ficar ao seu lado, já preparado para o confronto. Mas o que viu o surpreendeu.

O homem que tinha sorrido para ele do segundo andar estava agora no meio do corredor.

Vestia uma pele de cachorro e tinha um sorriso estranho no rosto. O estranho é que Chen Ge não sentia nenhuma hostilidade vinda dele. Era como se o homem o conhecesse de antes.

"Lá fora, ele também apareceu porque me viu?" Tudo que foge à regra tem um motivo. Chen Ge mandou Xu Yin testar o homem algumas vezes, mas ele não ofereceu resistência. Só olhava com um pouco de confusão, como se Chen Ge não devesse atacá-lo.

"Esse cara me conhece? Impossível! É a primeira vez que nos vemos. Será que é por causa do título de 'Protegido pelos Espectros'?" Chen Ge se aproximou do homem. Ele não se esquivava, era obediente, como um animal de estimação domesticado.

"Que estranho." Chen Ge é do tipo que não cede à força, mas sim à gentileza. Ver o homem agindo como se aceitasse qualquer coisa sem revidar o deixou intrigado.

Tentou usar o álbum de desenhos no homem, mas não funcionou. Aquele homem tinha um corpo vivo, não podia ser absorvido pelo álbum.

Em outras palavras, o homem ainda estava vivo, mas vivia com a alma de um cachorro.

Chen Ge tentou se comunicar com ele, mas não adiantou.

"O que esse cara quer?" Chen Ge mandou Xu Yin vigiar o homem e entrou no quarto ao lado para revistar.

No quarto onde o homem tinha estado, ele encontrou algo.

As paredes estavam cobertas de fotos, que contavam a história de uma pessoa, ou melhor, de um cachorro.

A história era mais ou menos assim: o dono da casa adotou um cachorro preto, batia nele com frequência, até que um dia, o cachorro, já quase morto, foi salvo pela Sombra.

A Sombra, do seu jeito, trocou as almas do cachorro e do dono. O agressor se tornou o agredido.

Chen Ge fez uma suposição: "Será que a Sombra é realmente eu quando criança? Ela continua crescendo de uma forma diferente?"

Estranhos se enganarem ainda podia ser coincidência, mas até os nativos de Liwanzhen se enganarem fez Chen Ge perceber a gravidade do problema. Aquela Sombra tinha cem por cento a ver com ele!

"Talvez ela se pareça muito comigo, mas só em alguns aspectos." Olhando para as fotos na parede, Chen Ge também já tinha resgatado animais maltratados, como o gato branco. Nesse sentido, ele e a Sombra realmente tinham algo em comum.

Mas as personalidades e as formas de lidar com os problemas eram completamente diferentes.

Chen Ge resgatou o gato branco e o levou para a casa mal-assombrada para criar. Já a Sombra, depois de salvar o cachorro preto, não só não o adotou, como deixou que continuasse sendo maltratado, até que finalmente matou o dono.

Rancor, desespero, dor, hostilidade. Pela forma como a Sombra ajudou o cachorro preto, dava para ver sua personalidade.

"Esse cara é muito perigoso." Chen Ge colou todas as fotos de volta no lugar e saiu do quarto.

O homem estava agachado no chão, inclinando a cabeça para observar Chen Ge. Parecia ter percebido que algo estava errado.

"Esse cara tem que ficar. A Sombra pode mudar de aparência e se disfarçar de outros. Talvez eu possa usar o cachorro preto para encontrar a verdadeira forma da Sombra. Se possível, quero ter uma boa conversa com ela."

Chen Ge se agachou na frente do homem, olhou nos olhos dele e usou a Pupila Sombria para tentar ver a alma por baixo daquela pele.

"Sai daí. Você precisa de um novo lar."

Chen Ge continuou insistindo. A expressão facial do homem começou a mudar lentamente.

Minutos depois, um cachorro preto, cheio de cicatrizes, lutou para sair de dentro do corpo do homem.

Usando o álbum de desenhos, Chen Ge absorveu o cachorro preto. No instante em que o guardou, o celular preto no bolso vibrou novamente.

Ele pegou o celular, passou o dedo na tela e viu cinco mensagens não lidas.