Capítulo 607 – O Terceiro
Por causa de uma frase dita pela criança, a atmosfera dentro do carro de repente se tornou estranha.
O motorista segurava o volante com as mãos suadas, a mulher no banco do passageiro permanecia em silêncio, e a criança no banco de trás segurava firmemente um saco plástico preto, com um sorriso no rosto que não combinava com sua idade.
Dentre as "pessoas" no carro, apenas Chen Ge parecia normal, como se tudo estivesse sob controle.
Ele se aproximou um pouco mais da criança, com a voz calma e calorosa, mas o que dizia fez o motorista suar frio novamente.
"Não consigo adivinhar." Chen Ge olhou para o saco plástico cheio: "O tio pode dar uma olhada?"
"Não precisa." Vendo que Chen Ge estava de olho no saco preto, o sorriso no rosto da criança foi desaparecendo aos poucos.
"Na verdade, somos parecidos. Eu também estou procurando algo." Chen Ge levantou sua mochila, que era bem maior que o saco da criança.
"Você também está procurando?" A criança sentiu um leve cheiro de sangue vindo da mochila de Chen Ge. Percebeu que algo estava errado, diferente do que imaginara antes de entrar no carro: "O que você está procurando?"
"O que eu procuro está neste carro. Daqui a pouco, quando encontrar o momento certo, vou colocar todos eles no meu saco e levar embora." Chen Ge parecia um tio malvado assustando uma criança. Seu tom era brincalhão, mas a criança ao lado não esboçou nenhum sorriso; ela conseguia perceber que Chen Ge estava falando sério.
"Eles?" Diferente da criança, o motorista, ao ouvir a palavra de Chen Ge, quase pisou no freio achando que era o acelerador, quase batendo o carro em uma árvore.
Ele sentiu que o subtexto da frase de Chen Ge era que ele mataria todos no carro e os colocaria na mochila.
Sua mente não conseguia acompanhar o ritmo da conversa no banco de trás. A única coisa que trazia algum conforto ao motorista era a mulher no banco do passageiro. Para ele, aquela mulher era frágil e digna de pena; se algo desse errado, ele fugiria com ela, e assim poderiam se ajudar mutuamente.
"A situação agora é complicada. O que posso fazer é, enquanto me protejo, ajudar mais pessoas que precisam!" O motorista fez uma promessa a si mesmo. Ele deu uma olhada furtiva no banco do passageiro; a mulher, que parecia tão indefesa, também parecia ter percebido o problema, e seus dedos tocaram levemente o joelho do motorista.
Chen Ge não fazia ideia do papel que estava desempenhando no roteiro do motorista. Sua atenção estava toda na criança ao lado.
Já que se encontraram, que tal fazer amizade e convidá-lo para sua casa?
O táxi seguiu em frente por mais um trecho, até chegar a um cruzamento em forma de T.
Se continuassem em frente, sairiam dos subúrbios orientais de Jiujiang e entrariam na zona rural. Se fossem pelo outro caminho, chegariam ao Túnel do Dragão Branco.
"Para que lado fica sua casa?" O motorista perguntou educadamente à mulher. Ela, que mantinha a cabeça baixa, ergueu lentamente o rosto e apontou na direção do Túnel do Dragão Branco.
"Túnel do Dragão Branco?" Quem trabalha com táxi em Jiujiang há mais tempo conhece o Túnel do Dragão Branco. Aquele lugar é como uma estrada amaldiçoada, cheia de acidentes. Há muitas histórias sobre ele, e até várias versões diferentes de contos de terror.
O rosto do motorista empalideceu. Ele se forçou a manter a calma e se virou para olhar para a criança com o saco: "Garoto, você lembra para que lado fica sua casa?"
O menino, sentado ao lado de Chen Ge, parecia um pouco irritado. Ele apontou com os lábios na direção do Túnel do Dragão Branco, sem expressão.
"Sua casa também é para lá? Parece que vocês são da mesma vila." O motorista tentava encontrar uma desculpa para se tranquilizar. Ele forçou um sorriso e olhou para Chen Ge: "E você?"
"Eu também vou para aquela direção. Mas sugiro que você não continue dirigindo para lá. Deixe os dois descerem e depois me leve de volta ao lugar onde a mulher entrou no carro." Chen Ge queria proteger o motorista. Se ele descesse junto com a mulher e a criança, e o motorista voltasse sozinho, poderia encontrar algum perigo no caminho. Por isso, ele pensou em acompanhar o motorista de volta por um trecho.
Sua intenção era boa, mas o motorista não via as coisas assim. Chen Ge lhe passava uma sensação muito perigosa. Com mais gente no carro, ainda dava para lidar, mas se ficasse sozinho, quem sabe o que Chen Ge poderia fazer.
Quanto mais o motorista pensava, mais medo sentia. Chen Ge, sozinho à noite, pegando um táxi para ir para o meio do nada, com uma mochila que exalava cheiro de sangue... O que essa pessoa queria fazer já estava bem claro.
"Deixa pra lá. Já que estão no mesmo caminho, vou levar todos juntos." O motorista tentou enviar sua localização para o grupo da empresa, mas o sinal estava ruim, e a mensagem não foi enviada. Ele reduziu a velocidade e digitou duas mensagens manualmente, mas ainda assim apareceu "falha no envio".
Mesmo com o carro cheio de pessoas, o motorista não se sentia nada seguro. Queria chamar a polícia, mas temia irritar os passageiros e fazê-los tomar alguma atitude irracional.
Enquanto o motorista se angustiava, um idoso surgiu na frente do cruzamento em T. Ele carregava um cesto de ervas e mancava.
Parecia ser um coletor de ervas. Os subúrbios orientais são cercados por rios e montanhas, com economia pouco desenvolvida. Mas, justamente por isso, o ambiente não foi destruído, e há muitas espécies de plantas e animais nas montanhas, além de ervas raras.
Diferente do cultivo artificial, as ervas colhidas na natureza são mais caras. Por isso, os idosos que ficam nas vilas próximas costumam subir as montanhas para coletar ervas.
O velho parecia ter caído ao descer a montanha. Sua perna direita estava levemente deformada, a roupa rasgada pelos galhos, e a barra da calça manchada de sangue.
Ele passou pelo táxi e, sem querer, olhou para dentro do carro. Seus olhos se arregalaram, e ele acelerou o passo, mancando para longe.
Ao ver a expressão do idoso mudar, o motorista ficou ainda mais apavorado.
Ele abriu a janela para perguntar algo ao velho, mas quando olhou para fora, o homem mancando já havia desaparecido.
"Mancando, e ainda consegue andar tão rápido?"
Sentiu um frio nas costas da mão. O motorista levou um susto e, ao se virar, viu que a mulher no banco do passageiro havia colocado a mão sobre a dele.
"O que foi?"
A mulher apontou para a direção do Túnel do Dragão Branco, indicando que ele deveria ir logo.
Enquanto o motorista fazia a curva, Chen Ge também falou: "Alguém passou lá fora agora? Com quem você estava falando?"
"Um velho com problema na perna, carregando um cesto de bambu. Você não viu? Ele parou ao lado do carro por um tempo!" A voz do motorista ficou mais alta.
Chen Ge balançou a cabeça. Lá fora, só havia sombras de árvores balançando. Não havia nenhum velho passando.