Capítulo 600: Se Eu Disser
O parque de diversões abre às nove horas, e Chen Ge não tem muito tempo. Ele decide ir agora mesmo para explorar o terreno.
"Chefe Li, por favor, não subestimem essa pessoa. Ele é perigoso, não é tão inofensivo quanto parece. Não o tratem como um paciente psiquiátrico comum." Chen Ge não sabe quando Jia Ming vai acordar. Depois de dar algumas instruções a Li Zheng, ele sai do quarto do hospital.
Pega um táxi para o local onde Jia Ming alugou inicialmente. O dia mal amanheceu, há poucas pessoas na rua, e de vez em quando alguns carros passam.
Chen Ge não dormiu a noite toda. Primeiro foi para a escola de reabilitação perseguir o espírito da água, depois entrou no reservatório para recuperar o corpo, e por fim voltou ao hospital para cooperar com a polícia na investigação de Jia Ming. Ele aproveitou cada minuto da noite, sem descansar um instante.
A cabeça pesada, o sono o invade. Chen Ge cochila um pouco no táxi e só acorda quando o motorista o chama ao chegar ao destino.
Dormir apenas alguns minutos não adianta nada. Chen Ge sente como se tivesse água dentro do crânio.
Esfrega o rosto e entra num beco. Uma onda de ar frio e úmido o atinge. Talvez seja pela disposição dos prédios, a luz externa mal consegue penetrar no beco.
"Não é à toa que Jia Ming não ousou parar depois de fugir do prédio, só relaxou quando chegou à rua principal."
Aqui é a cidade velha. Os prédios ao redor não são altos, a maioria são casas de dois ou três andares, muito velhas e deterioradas. Algumas paredes têm o caractere "demolir" pintado em vermelho.
"As coisas que Jia Ming contou no hospital devem ter acontecido há alguns anos. Espero que a senhora idosa não tenha se mudado e que a casa ainda esteja lá."
Com base no endereço fornecido por Li Zheng, ele percorre o beco por um bom tempo até encontrar a casa da idosa.
Os vizinhos dos lados já se mudaram. Uma das casas tem um buraco enorme na janela, parece que está desabitada há muito tempo.
"Que lugar difícil de achar." Chen Ge entra no corredor e vê alguns vasos de plantas no canto. Talvez por não receberem sol há muito tempo, a maioria das flores murchou, e os galhos e folhas estão amarelados.
"Tem alguém?" Chen Ge bate na porta do primeiro andar e chama baixinho.
Ninguém responde. Só o eco da própria voz no corredor.
Olhando para cima, Chen Ge sente que este prédio tem algo estranho.
Ele tenta puxar a porta. A porta de segurança do primeiro andar se abre facilmente.
"Destrancada?" Curioso, Chen Ge abre a porta completamente.
Um forte cheiro de mofo sai do cômodo. Dentro há vários objetos velhos. O sofá é daquele tipo de pano dos anos 20, o relógio de parede e a mesa baixa parecem ter muitos anos.
"Não há poeira na maçaneta, o relógio está funcionando. Deveria ter alguém morando aqui." Sem permissão, Chen Ge não entra na casa dos outros. Ele chama mais uma vez lá fora, mas ainda não há resposta. No entanto, do telhado vem um som peculiar, como o de uma bola murcha rolando no chão.
"No terceiro andar?" Chen Ge sobe as escadas. Ao passar pelo segundo andar, percebe que a porta também está aberta, mas não há cheiro de mofo, como se fosse limpa todos os dias.
Para um momento na porta do segundo andar e continua subindo.
A janela na curva da escada está coberta por um pano preto. Não há luz na parede. Lá fora já amanheceu, mas o corredor continua escuro como breu.
"Tem alguém?"
O som estranho entra em seus ouvidos. Chen Ge, como o protagonista de um filme de terror que insiste em se meter em encrenca, caminha passo a passo em direção ao som.
Pisa nos degraus, movendo-se para um lugar mais escuro. Segura o corrimão, sentindo o frio que vem da palma da mão.
No terceiro andar do prédio velho, não há luz alguma. Chen Ge tira o celular e acende a lanterna.
Ilumina a direção do som. Quando a luz passa, algo sai disparado.
Músculos tensos, ChenGe examina o terceiro andar. A porta foi removida, e o cômodo está cheio de todo tipo de entulho. O mais chamativo é um piano coberto de poeira.
Faltam muitas teclas, como a boca de um velho que perdeu quase todos os dentes.
"Antigamente, eles deviam viver bem. Tinham um prédio de três andares e podiam comprar um piano." Chen Ge se aproxima do piano e pressiona uma tecla. O som agradável que imaginava não aparece.
Ele olha para dentro do piano. Um monte de cabelo foi enfiado ali. Não sabe se é impressão, mas Chen Ge acha que os fios ainda se mexem, encolhendo para dentro do piano.
Mete a mão no piano e, com calma, pega um punhado de cabelo: "Tem preto e branco. As pontas cortadas são retas, como se tivessem sido cortadas. Será que a senhoria idosa juntou isso?"
A nora da senhoria era jovem quando aconteceu o acidente, não teria cabelo branco.
"Por que a senhoria enfiou tanto cabelo no piano?" Chen Ge joga o cabelo de volta no piano. Mas, no instante em que retira o braço, seus olhos captam um rosto cinzento entre os fios, que parece ter estado ali o tempo todo, encarando Chen Ge.
"O que é isso?" O terceiro andar é o quarto dos mortos. Fenômenos sobrenaturais são normais para Chen Ge.
Sem pânico, ele coloca o celular de lado, iluminando o interior do piano, e enfia as duas mãos no cabelo: "Você ainda está aí?"
Ninguém sabe o que está escondido sob o cabelo, nem o que vai tocar. Os dedos roçam os fios, uma sensação desagradável.
Depois de revirar por um tempo, Chen Ge não encontra nada. Tira as mãos e olha para o relógio ao lado. É parecido com o da casa da idosa no primeiro andar, mas só o ponteiro dos segundos se move.
Gira e gira, mas o horário no relógio não muda, parado nas 3:44.
"São três da tarde ou três da madrugada? O que aconteceu nesse horário?" Enquanto a atenção de Chen Ge está no relógio, algo sai correndo debaixo do piano. O som de uma bola rolando ecoa pelo cômodo. Quando Chen Ge reage, o som já chegou ao segundo andar.
"Fugiu? Não, ele está me guiando." Chen Ge volta ao segundo andar. Sente que algo está observando suas costas.
O som desaparece no segundo andar. Coincidentemente, a porta do segundo andar está aberta num ângulo diferente de antes.
"Entrou no quarto?" Chen Ge empurra a porta do segundo andar. Este é o quarto da história de Jia Ming.
Mas, diferente do que Jia Ming descreveu, todas as janelas estão lacradas com tábuas de madeira. Embora esteja limpo e arrumado, tem uma atmosfera estranha.
Entrando, Chen Ge vai direto ao banheiro, o lugar com a energia yin mais forte do prédio.
Abre a porta, dá uma olhada rápida e para em frente ao espelho.
Olha para si mesmo no espelho por um longo tempo.
Se alguém fica muito tempo se olhando no espelho, o cérebro cria uma ilusão: a pessoa no espelho parece cada vez menos com ela mesma, gerando uma sensação de estranheza e medo indescritível.
Depois de cinco minutos, Chen Ge não encontra nada de errado no espelho. Imagina que a sombra, depois de cumprir seu objetivo, foi embora, sem deixar armadilhas no espelho.
Mas, por precaução, ao se preparar para sair, ele usa o Olho Yin novamente. No instante em que suas pupilas se contraem, seus olhos captam um par de pernas cinzentas.
Uma criança com a cabeça quase pendendo até o chão está parada na porta do banheiro, olhando para ele.
Virando-se rapidamente, Chen Ge não vê nada atrás. Olha de novo no espelho, mesmo usando o Olho Yin, a criança não aparece mais.
"Para onde foi?"
Quando Chen Ge sai do banheiro e olha para a sala, sua expressão muda. A porta da sala foi fechada.
As janelas estão lacradas com tábuas, e agora a porta também está fechada. O cômodo fica sufocante.
"Foi aquele moleque?" Ele vai até a porta da sala e tenta girar a maçaneta. A porta está trancada por dentro, sem chave não abre.
Enquanto Chen Ge se debate com a fechadura, um som leve vem de algum lugar da sala, seguido pelo chiado de eletricidade.
Ele se vira. No cômodo escuro e opressivo, a televisão, que estava desligada, foi ligada por alguém.
Na tela, uma imagem distorcida em azul e branco aparece, piscando de vez em quando.
"Essa cena apareceu na história de Jia Ming." A voz de Chen Ge é calma, mas seu coração acelera um pouco.
Antes que ele termine de falar, a tela pisca mais intensamente. Entre as imagens azuis e brancas, uma sombra borrada é visível.
A sombra parece se aproximar lentamente de Chen Ge. No começo, é do tamanho de um punho, depois cresce até o tamanho de uma cabeça. Conforme ela se aproxima, Chen Ge a vê com mais clareza.
É a silhueta de uma mulher. Seu corpo está torcido como uma corda, a roupa apertada contra a pele, o queixo quebrado, os olhos quase saltando das órbitas.
A tela pisca cada vez mais rápido. A cada piscada, a mulher borrada dá um passo mais perto. O coração de Chen Ge começa a bater descontroladamente.
Quando a mulher fica do tamanho real, e a tela não consegue mais mostrar seu corpo inteiro, Chen Ge não hesita mais. Leva a mão para trás e murmura duas palavras.
"Xu Yin!"
O dedo toca as costas, mas não encontra nada. O coração de Chen Ge dá um pulo.
Ele de repente se lembra que, de manhã, recebeu a ligação de Li Zheng e foi ao hospital cooperar com a polícia.
Sem tempo, a mochila molhou no reservatório, e como o dia estava amanhecendo e ele ia encontrar a polícia, não achou que haveria perigo. Então, não trouxe a mochila.
Os dedos rígidos param atrás das costas. Chen Ge levanta a cabeça devagar e olha para a televisão.
Gotas de suor frio escorrem. Seu olhar sobe lentamente até ver a tela.
Na tela, só há imagens azuis e brancas distorcidas e piscando. A figura da mulher desapareceu.
A pressão some instantaneamente. Chen Ge suspira aliviado. Mas, nesse momento, sente um formigamento na nuca, como se um fio de cabelo tivesse roçado sua pele.
As pálpebras tremem levemente. Chen Ge também ouviu essa cena na história de Jia Ming.
Ele vira o corpo devagar, olhando de soslaio. Um par de olhos brancos e pálidos o encara por trás, sombriamente.
A mulher da tela, com o corpo torcido como corda, o queixo quebrado e os olhos quase saltando, está agora atrás dele.
A pele do rosto se contrai. Chen Ge sente o ar congelar. Olha para o cabelo desgrenhado da mulher, como se tivesse sido puxado com força, e dá um passo para trás.
O pé tropeça em algo. Chen Ge cai sentado no sofá. Olhando para a sombra fantasmagórica que se aproxima, ele fala quase instintivamente: "E se eu disser que vim para ajudar você, acredita?"