Capítulo 611: Capítulo 611 Capítulo 598 Como Sombra

**Capítulo 598: Como uma Sombra**

“O que se pensa durante o dia, sonha-se à noite. Isso é normal.” Li Zheng conhecia Chen Ge razoavelmente bem. Em sua opinião, não era do feitio de Chen Ge se esconder debaixo de uma cama para cometer um crime.

“Sei que não acredita em mim, mas aquilo não foi um sonho.” A voz de Jia Ming baixou, com um tom estranho: “Já pensou nisto: quando você está diante do espelho lavando o rosto, o que o seu reflexo está fazendo? Ele abaixa a cabeça para lavar o rosto também, ou continua parado no espelho, olhando para você de cima? Já passou por aquela situação em que alguém num cubículo do banheiro pede algo emprestado, mas quando você sai, descobre que estava sozinho no banheiro? Já reparou que, quando liga para a pessoa mais próxima, ela sempre diz que há ruídos estranhos no seu quarto, como se houvesse muitas coisas ao seu lado?”

Jia Ming apertava a cama com as mãos, cada vez com mais força: “Eu passei por tudo isso.”

“É melhor eu chamar o médico.” Li Zheng era ateu. Na academia de polícia, estudara psicologia criminal básica e psicopatologia. Para ele, se Jia Ming não estivesse mentindo, então certamente havia algo errado com sua mente, provavelmente sofria de delírios.

“Antes de o médico entrar, você poderia me deixar contar algumas histórias?” A cabeça de Jia Ming virou-se para Chen Ge: “Histórias sobre ele e eu.”

“Vocês parecem tão íntimos assim?” Li Zheng concordou com um aceno de cabeça.

“Depois de sair da casa de Jiang Long, fugi desesperadamente, corri por meia hora sem rumo, dando uma grande volta até chegar em casa.”

“Na época, eu alugava um lugar. A senhoria era uma idosa. Ela morava no primeiro andar, nós no segundo, e o terceiro era um depósito.”

“Quando voltei, já era muito tarde. Ao entrar no corredor, o gato da senhoria não parava de miar. Não era aquele miado manhoso de sempre. O som era curto, agudo, muito assustador.”

“Talvez acordada pelo miado, depois de um tempo, a senhoria abriu a porta interna de casa e me olhou, dizendo uma coisa.”

“‘Andem mais leve. Não dormem à noite, ficam correndo para quê?’” Jia Ming ainda se lembrava da expressão da idosa na época, imitando-a muito bem.

“Apressei-me em pedir desculpas. Quando cheguei ao segundo andar, foi que percebi algo errado. Olhei para trás. No corredor escuro, estava claramente sozinho. Por que a senhoria disse ‘andem’?”

“Na hora, um ar frio subiu da minha espinha até a cabeça. Corri até a porta do meu apartamento, procurando as chaves. Mas quanto mais nervoso ficava, menos as encontrava. Foi quando outra coisa estranha aconteceu.”

“Do depósito no terceiro andar, vinha um som de ‘tum, tum’, como se uma bola estivesse rolando no chão.”

“Quando me mudei, a senhoria me disse que o terceiro andar não era para morar, só para guardar tralhas. Perguntei o motivo, e ela disse que o filho dela e a família moravam lá antes, mas depois sofreram um acidente de carro. O terceiro andar ficou vazio, mas ela não queria alugá-lo, queria manter a lembrança.”

“O terceiro andar, que nunca tinha moradores, fazia barulho. Não ousei ficar no corredor. Tirei as chaves do bolso externo do casaco, mas foi nesse momento que o barulho parou.”

“Curioso, olhei para cima. No canto do terceiro andar, havia um par de pés cinzentos. Por causa do ângulo, só conseguia ver os pés.”

“Fiquei apavorado. Abri a porta o mais rápido que pude.”

“Dentro de casa, ainda estava perturbado. Fechei a porta de segurança externa. Quando ia fechar a porta interna, a curiosidade falou mais alto. Queria ver o dono daqueles pés cinzentos.”

“Espiei pela fresta da porta, ajustei o ângulo, agachei-me devagar, subi o olhar e vi um par de pernas cinzentas. Quando estava prestes a continuar olhando para cima, de repente, a cabeça de uma criança apareceu no meu campo de visão!”

“A postura era muito estranha. As pernas estavam retas, mas a cabeça inclinada, quase encostando nos pés. Não era algo que uma pessoa normal conseguisse fazer.”

“Bati a porta com força. Foi então que lembrei de acender a luz da sala.”

“Sabia mais ou menos onde ficava o interruptor. Estendi a mão para lá. Quando toquei no interruptor, parece que toquei em algo. A sensação era de pele viva. Parecia que, dentro da minha própria casa, tinha tocado nos dedos de um estranho.”

“Apertei o interruptor. A luz me envolveu, trazendo uma sensação de segurança que há muito não sentia. Comecei a chamar o nome da minha esposa, mas não houve resposta.”

“Estava apavorado. Acendi as luzes de todos os cômodos. Por fim, ao lado do telefone na sala, encontrei um bilhete deixado pela minha esposa.”

“Dizia que meu sogro estava gravemente doente, o médico a chamou às pressas para o hospital. A comida estava na geladeira, era só eu esquentar quando chegasse.”

“Minha esposa não estava em casa. Guardei o bilhete. Olhei para minha mão. Há pouco, eu realmente tinha tocado na mão de outra pessoa. Naquele quarto, além de mim, havia mais alguém.”

“Não ousei dormir. Revistei todos os lugares do quarto onde alguém poderia se esconder. Não encontrei nada. Tentei ligar para minha esposa. Disquei vários números, ninguém atendeu.”

“Estava apavorado. Liguei a televisão, aumentei o volume de propósito. Depois, fiz várias xícaras de café bem forte. Decidi passar a noite na sala. De manhã, me mudaria daquela casa velha e isolada.”

“Não prestei atenção no que estava passando na TV. O sono vinha, e eu bebia café sem parar.”

“Finalmente, aguentei até o amanhecer. Não aguentei mais e fui ao banheiro.”

“Depois de terminar, fiquei diante da pia, queria lavar o rosto com água fria. Abri a torneira, olhei para a água corrente, mas senti um aperto no coração inexplicável. Como se alguém estivesse me observando.”

“Suspeitava muito que o estranho que me seguira para dentro de casa estivesse escondido no banheiro. Olhei de soslaio para o banheiro, mas não havia lugar algum para alguém se esconder.”

“Endireitei-me, olhei para o meu reflexo no espelho. Curvado, abatido. Balancei a cabeça. Decidi que, quando amanhecesse, iria embora. Mudar para um lugar movimentado, com muita gente.”

“Larguei a toalha. Senti que algo estava errado, mas não tive tempo de pensar. O telefone da sala tocou.”

“Levei um susto. Corri para atender. Do outro lado, era a voz da minha esposa.”

“O céu já não estava mais completamente escuro. Ao telefone, minha esposa disse que tinha me ligado várias vezes, mas ninguém atendia. Ela estava muito preocupada.”

“Ao ouvir isso, meu couro cabeludo formigou. Ontem à noite, fui eu quem ligou para ela várias vezes. Quem não atendeu fui eu.”

“Instintivamente, olhei para o fio do telefone. Quando ia contar isso a ela, ela de repente me perguntou por que havia outras pessoas no meu quarto. Ela disse que ouvia, do meu lado, alguém falando de forma entrecortada. A voz era muito parecida com a do meu sogro. Parecia que estava dizendo ‘atrás, atrás…’”

“Virei a cabeça rapidamente para olhar para trás. Não havia ninguém. Mais longe, só conseguia ver meu reflexo no espelho, de frente para mim, também com um telefone na mão, fazendo o mesmo gesto que eu.”

“O dia estava quase amanhecendo. Disse à minha esposa para cuidar bem do meu sogro doente. Desliguei o telefone. Sentei-me de volta no lugar, mas quanto mais pensava, mais estranho me parecia.”