Capítulo 583: Um Cheiro Familiar, Vou Devorá-lo!
O homem olhou para o céu, observando aqueles olhos vermelhos escarlates escondidos nas sombras. "Vocês também estão me observando, não é? Não se escondam mais, já os vi. Saiam, saiam! Todos, saiam agora!" A voz ficou cada vez mais alta, e o grito daquele homem ecoava por toda a rua. Ele não temia nada, parecia que o medo simplesmente não existia nele.
A rua vermelha, sangue, pingando, pingando no chão. Nos becos onde se acumulavam carne podre e musgo, nos canos de esgoto onde os olhos vermelhos se escondiam, e nas sombras dos cantos onde nenhuma luz alcançava. Criaturas de formas grotescas e aparências aterrorizantes começaram a surgir. Já não era possível descrevê-las simplesmente como horríveis ou assustadoras. Não era uma aura que se adquiria apenas com sangue ou massacres. Elas não eram humanas, jamais poderiam ter sido humanas. Deviam viver atrás da porta. Eram vidas do outro lado da porta, monstros que habitavam os pesadelos, que devoravam energia negativa, alimentando-se das emoções negativas dos vivos. Não tinham forma fixa, diferentes dos humanos. Seus corpos e membros se torciam em ângulos inconcebíveis. Não podiam ser chamados de humanos, ou melhor, só tinham forma humana porque haviam devorado demasiadas emoções negativas deixadas pelos vivos.
"Estão esperando por mim, não é? Vocês já planejaram tudo isso, não é? Esta noite, vão me colocar na mesa de jantar. Fazer de mim o prato principal. Eu vi os garfos e facas que prepararam. Vi o olhar ganancioso de vocês. Vi o movimento de engolir saliva, vi suas gargantas tremendo de excitação." O homem gritava como um louco, sem se esquivar, parado no mesmo lugar, esperando que aquelas coisas o cercassem. "Vocês acham que eu vou ter medo?" "Eu amo essa sensação, entre a histeria, chorar, gritar, rugir. Coisas que não ousava dizer quando era humano, posso gritar tudo agora. Aqui, posso fazer tudo o que gosto. Não preciso mais disfarçar, não preciso mais me esconder." "Muita gente acha que enlouqueci, mas o que isso importa para eles?" "Antes, eu era médico, mas de que adianta um médico que não consegue nem curar a si mesmo?"
Os olhos do homem estavam cheios de vasos sanguíneos. Ele olhou para os monstros que se aproximavam cada vez mais, e o sorriso em seu rosto não pôde mais ser contido. Os cantos de sua boca se rasgaram para os lados, a carne se abriu, revelando um sorriso extremamente aterrorizante. Ele estava cercado por todos os monstros, mas não demonstrava nenhum pânico. Como se não fosse ele quem estivesse cercado, mas sim os monstros. O tom do homem era doentio e insano, mas ele tinha o direito de dizer aquilo, pois sua força também havia alcançado um nível assustador. Durante o tempo em que falava sozinho, seu jaleco médico vermelho-sangue não parava de exsudar sangue. Correntes grossas, formadas por inúmeros fios de sangue, estendiam-se de suas costas, transformando-o em um monstro que parecia ter inúmeras caudas gigantes. O sangue se condensava, e sua aparência naquele momento era três ou quatro décimos semelhante ao grande demônio que ele havia gravado na porta da casa assombrada de Chen Ge.
"Todas as coisas no mundo se complementam e se opõem, mas os humanos são estranhos. Nunca consegui entender o que se opõe a eles. Antes, achava que o oposto dos humanos eram os fantasmas, mas só depois que me tornei um fantasma é que descobri. Na verdade, o oposto dos humanos não são os fantasmas, mas sim os deuses! Os deuses que dominam tudo!" Correntes grossas varriam todo o quarteirão. Fios de sangue se espalhavam, e ao tocar as sombras dos monstros, se dividiam e explodiam constantemente. Como se fossem cobras venenosas com vontade própria, penetravam em seus corpos, enraizavam-se em seus corações e sugavam loucamente os nutrientes de seus corpos. Gritos e lamentos ecoavam de todas as direções da rua. Os corpos dos monstros murchavam a olhos vistos. Ouvindo os lamentos ao redor, o homem ria alto. Enquanto ria, os cantos de sua boca se rasgavam até as orelhas. Enquanto ria, lágrimas escorriam! Mas ele parecia não perceber, rindo loucamente, como se toda a dor, todas as coisas irreversíveis, pudessem ser liberadas através daquele sorriso. "Ainda não é o suficiente, está longe de ser o suficiente!" Risadas histéricas ecoaram novamente de sua boca rasgada. O sangue escorria pelos ferimentos. Ninguém sabia o que ele havia passado ali. Ninguém sabia por que ele havia se tornado o que era agora. Mas uma coisa era certa: ele ainda estava vivo, vivendo de uma forma ainda mais incompreensível, repleta de destruição. O sangue tingia seus dentes de vermelho. Atrás dele, arrastava inúmeros monstros. Correntes atravessavam os corpos daquelas criaturas. Ele arrastava os monstros, correndo em direção ao fim da rua. Na esquina, havia um edifício carbonizado. O prédio tinha mais de dez andares. Olhando pelas janelas quebradas, em um dos cômodos, havia uma porta que não era vermelha-sangue. Metade era vermelha-sangue, metade era de um marrom normal. Sabia-se que, naquela cidade vermelha, além do preto da destruição, do vermelho do sangue e do cinza do desespero, raramente se viam outras cores. "Atrás daquela porta, sinto um cheiro familiar, tão bom!" O homem, arrastando inúmeras sombras de monstros, parou ao lado do prédio carbonizado. Ele ergueu a cabeça e olhou para cima. No topo daquele edifício, estava uma pessoa completamente envolta em vermelho. Aquela pessoa, do alto, também observava o homem vestido com o jaleco de médico.