Capítulo 487: Você viu meu filho?
"Linha 17?" Xiao Gu olhou para trás, para o ponto de ônibus. A linha 17 não passava perto de onde ele morava: "Preciso pegar a 104, ir até o terminal e depois andar mais dois quarteirões." No ponto, estava escrito que o último ônibus da linha 104 saía às nove da noite. Xiao Gu suspirou aliviado ao ver isso. Encostou-se no ponto e esperou calmamente a chegada do 104. O ônibus da linha 17 entrou na estação. O motorista era um homem de meia-idade, barbudo e desleixado. As portas da frente e de trás se abriram. Os passageiros desceram, mas o ônibus não foi embora, permanecendo parado no lugar. "O que significa isso?" Xiao Gu não pretendia pegar esse ônibus. Ele ergueu os olhos para o motorista e percebeu que o homem fitava fixamente a porta, a um ou dois metros de distância de Xiao Gu, como se houvesse alguém ali. Após cinco ou seis segundos, o motorista de meia-idade resmungou, impaciente: "Se vai entrar, entre. Se não, fique longe da porta! Maluco..." A porta da frente se fechou. O ônibus da linha 17 seguiu lentamente em frente, desaparecendo rapidamente no fim da estrada. "Com quem ele estava falando?" Xiao Gu olhou ao redor. No ponto de ônibus, só havia ele. Nuvens escuras se acumulavam no céu noturno, sem lua nem estrelas, dando uma sensação opressiva. Às oito e vinte, começou a garoar. Os transeuntes apressavam o passo, e a rua, antes movimentada, logo ficou deserta. "Estou sentindo um pouco de frio." Xiao Gu tirou o celular e começou a navegar sem rumo, folheando as últimas notícias locais de Jiujiang. "Últimas atualizações do caso de roubo de cadáver no Hospital Central: câmeras capturam figura rastejante, possibilidade de ação interna descartada." "Apresentador de exploração espiritual de certa plataforma desaparece durante transmissão ao vivo na Escola Secundária Muyang na madrugada de ontem. Segundo fontes, desde que a escola foi abandonada, várias pessoas desapareceram lá." "Funcionário王某 do Centro de Controle de Doenças do Novo Distrito morre de forma misteriosa: 30% do sangue total drenado, ferida em forma de rosa nas costas." "Três homens se afogam ao nadar no reservatório do subúrbio leste. Com o calor recente e as características de muitos rios e águas em Jiujiang, um lembrete especial: peça aos cidadãos que não nadem ou brinquem em águas abertas para evitar acidentes." "Notícias rápidas de Hanjiang: um casal comete autoimolação no Centro Comercial Liwan, aparentemente realizando algum tipo de ritual." "Após uma semana, o último ônibus da linha 104 sofre outro grave acidente de trânsito! A empresa de ônibus fará ajustes nas rotas." Guardando o celular, Xiao Gu olhou para o ponto de ônibus vazio e, sem motivo, estremeceu. Não sabia desde quando, mas as notícias sobre fofocas de celebridades haviam diminuído, substituídas por vários eventos bizarros e pesados. "Por que de repente sinto que o mundo ficou perigoso?" Xiao Gu se agachou na beira da calçada. A chuva aumentava cada vez mais. Ele não tinha guarda-chuva, então só podia se abrigar no ponto. "Além do Irmão Chen e da Irmã Xu Wan, não tenho muitos amigos em Jiujiang. Agora está tão tarde, não seria adequado pedir ajuda a eles por telefone, já que todos devem estar cansados depois de um dia inteiro." Xiao Gu era uma pessoa muito atenciosa e de caráter direto; quem fosse bom com ele, ele retribuía, sem muitos rodeios. A estrada logo ficou molhada. A chuva escorria pelo telhado do ponto. Não se sabia quando a chuva iria parar. "Por que o ônibus ainda não chegou?" Os contornos dos prédios ao longe ficaram borrados na chuva. Os carros na rua diminuíam gradualmente. No ponto, a única companhia de Xiao Gu era o poste de luz ao lado. A luz amarelada, ao atravessar a cortina de chuva, tornava-se fraca. Uma onda de frio penetrava na manga de Xiao Gu. Ele esticou a cabeça para olhar a rua. Não se via nenhum ônibus, nem mesmo carros comuns ou caminhões. A rua estava vazia, lavada pela chuva. A cada dez metros, via-se um poste de luz, e era justamente aquela luz fraca que trazia um pouco de calor a Xiao Gu. A chuva continuava a aumentar. Xiao Gu esperava ansioso. Ele andava de um lado para o outro no ponto, pensando que, se um táxi aparecesse, ele pegaria um e voltaria direto para casa. A luz do poste diminuiu. Depois de esperar mais uns dez minutos, quase às nove horas, Xiao Gu finalmente viu, no fim da rua, um ônibus atravessando a cortina de chuva, vindo lentamente em direção ao ponto. Talvez por causa da chuva forte, Xiao Gu viu o veículo de longe, mas não ouvia nenhum som vindo dele. "Parece ser o 104." Xiao Gu revirou os bolsos em busca de trocados. Quando virou a cabeça, viu que havia mais uma pessoa no ponto! Não muito longe dele, estava uma mulher vestindo uma capa de chuva vermelha. Ela também parecia estar esperando o ônibus. "Essa moça não estava do outro lado da rua? Quando foi que ela veio para cá?" A parte externa da capa estava molhada. A mulher mantinha a cabeça baixa, e os cabelos que ficavam para fora estavam grudados, cobrindo o rosto. "Parece que ela não está usando sapatos. Será que é uma louca?" Xiao Gu se afastou para o lado. Ele ficou em um canto do ponto, enquanto a mulher de capa vermelha estava no meio. A chuva ficou ainda mais forte. O último ônibus da linha 104 entrou lentamente no ponto e parou entre Xiao Gu e a mulher. Xiao Gu, que já tinha o trocado pronto, deu um passo rápido em direção à porta. Mas, para sua surpresa, a mulher de capa, que estava calada e de cabeça baixa, de repente se moveu. Sem aviso, ela agarrou Xiao Gu. Os cabelos caíram sobre o braço dele. "O que você quer fazer!" A mulher ergueu lentamente a cabeça. Os cabelos cobriam a maior parte do rosto, e só era possível ver, através das frestas, um par de olhos quase inteiramente brancos. "Você viu meu filho?" "Não, não vi." Xiao Gu levou um susto com a mulher de capa. Tentou se soltar, mas a mão magra dela o segurava firmemente. "Você viu meu filho?" A mulher deu mais um passo à frente. A capa vermelha estava manchada de grandes sujeiras. Como as manchas eram de um tom marrom-avermelhado, parecido com a cor da capa, Xiao Gu não as tinha notado no início. "Moça, juro que não vi seu filho!" A porta traseira do ônibus já estava fechada. Xiao Gu não queria mais se envolver com a mulher de capa. Usou toda a força para se livrar da mão dela e entrou rapidamente no ônibus. Depositou uma moeda e sentou-se em um lugar perto da janela. Através do vidro, Xiao Gu viu a mulher de capa ainda parada no meio do ponto. Ela mantinha a cabeça baixa, os cabelos molhados colados ao rosto. "Ela também é uma coitada. Deve ter perdido o filho e, por causa da saudade, ficou com problemas mentais." Xiao Gu apoiou o queixo na mão, com um olhar de compaixão. A chuva, através das frestas do telhado do ponto, caía de vez em quando sobre a mulher, escorrendo pela capa e tingindo de vermelho o pequeno pedaço de calçada onde ela estava. "O veículo está partindo. Por favor, sente-se e segure-se firme. Bem-vindo ao ônibus sem cobrador da linha 104. Os passageiros que entrarem, por favor, dirijam-se para a porta traseira. Próxima parada: Hospital Central." A voz eletrônica fria veio da frente do ônibus. Xiao Gu espreguiçou-se e recostou-se no encosto. "O que é isso? Por que sinto as costas pegajosas?" Xiao Gu olhou para o encosto. O meio estava molhado, como se alguém tivesse sentado ali antes.