Capítulo 240: Chegou a minha vez? (I) “No começo, achei que a comida que eu fazia não agradava ao paladar dela, e não dei importância.” “Mas depois descobri que não era bem assim.” “Uma noite, acordei de um sonho no meio da madrugada, ouvi barulho na cozinha e me levantei da cama sem fazer barulho.” “A casa estava sem luz, pensei que fosse um ladrão, mas quando me aproximei, vi que a silhueta na cozinha parecia com a da minha esposa.” “Ela tirou um pedaço grande de carne de um saco plástico, e com a outra mão segurava uma faca de cozinha.” “Cortar carne faz barulho, talvez ela estivesse com medo de me acordar, então só fez cortes na superfície da carne, colocou temperos e, em seguida, colocou tudo numa panela.” “Carne cozida? Minha esposa estava cozinhando carne no meio da noite?” “Talvez ela estivesse se preparando para o café da manhã e o almoço do dia seguinte.” “Eu amo minha esposa, mesmo achando estranho, não fui incomodá-la. Voltei para o quarto e, pela porta aberta, fiquei observando ela escondido.” “Já eram três da manhã, e a carne da minha esposa finalmente ficou pronta. Ela olhou para fora, viu a porta do quarto aberta e eu ainda deitado na cama, dormindo.” “Ela parecia não querer que eu visse algo, então fechou a porta da cozinha.” “Depois, ouvi o som de dentes rasgando alguma coisa. Cerca de vinte minutos depois, minha esposa saiu da cozinha carregando um saco de lixo preto opaco.” “Não sei por que, mas ao vê-la, senti um certo medo.” “A barriga dela estava levemente inchada, o rosto ainda com manchas de óleo, e ela tinha um sorriso satisfeito.” “Depois de jogar o saco de lixo fora, ela tomou um banho para lavar o cheiro e, como de costume, deitou-se ao meu lado.” “A pessoa ao meu lado parecia ter um vício peculiar. A partir daquele dia, percebi que não a entendia nada.” “Não dormi a noite toda. Quando amanheceu, levantei para trabalhar, e minha esposa ainda dormia profundamente ao lado.” “Ela dormia de um jeito lindo, dava vontade de beijá-la, mas o que aconteceu na cozinha na noite anterior me deixou hesitante.” “Olhei para a barriga dela, já não estava tão inchada.” “Tudo o que aconteceu na noite anterior parecia uma ilusão.” “Vesti a roupa, desci as escadas. A lixeira lá embaixo já tinha sido limpa, e o saco preto da noite anterior não estava mais lá.” “Na noite seguinte, a mesma coisa aconteceu de novo. Parecia que ela tinha uma doença que a fazia querer comer carne.” “Mais uma vez, fiquei acordado a noite toda. Às quatro da manhã, depois que minha esposa adormeceu profundamente, vesti a roupa sem fazer barulho e saí.” “O céu ainda não tinha clareado. Revirei o lixo até finalmente encontrar o saco plástico preto que ela tinha jogado fora.” “Dentro, havia ossos cheios de marcas de dentes, parecia ser de um frango.” “Minha esposa tinha conseguido comer um frango inteiro sozinha. De repente, percebi que ainda não a conhecia o suficiente.” “No dia seguinte, as anomalias dela continuaram. Eu também comecei a acordar cedo todos os dias para revirar o lixo que ela descartava.” “Quanto mais eu via, mais me assustava.” “Minha esposa parecia estar experimentando diferentes tipos de carne. Começou com frango e peixe, e depois encontrei sacos com pelos de gato e cachorro.” “Sou uma pessoa que ama gatos, e foi a partir daquele dia que senti que precisava ter uma conversa séria com ela.” “Ela devia estar doente, ou talvez houvesse um demônio morando no estômago dela.” “Ninguém toleraria que a pessoa ao seu lado fizesse algo tão insano.” “Confrontrei ela. No começo, ela negou, mas quando mostrei o saco preto com o lixo, ela finalmente baixou a cabeça.” “Ela me disse que não conseguia se controlar, que sentia muita fome à noite, mas que, fora isso, não tinha nenhum comportamento anormal.” “Ela disse que cuidaria bem de mim, que me amava, mas quem iria querer que a pessoa ao seu lado fosse uma louca doente?” “Depois de pensar bem, decidi me divorciar dela, encerrando rapidamente aquele casamento breve.” “Minha esposa implorou para que eu ficasse, e eu também a amava, mas o comportamento dela me deixava inquieto.” “Deixei ela e fui morar sozinho.” “Minha esposa parecia ainda me amar. Todos os dias, me deixava mensagens, me ligava, tentava de tudo para entrar em contato comigo.” “Sinceramente, além daquele vício estranho, ela não tinha nenhum defeito. Era carinhosa, atenciosa, linda e dedicada.” “Aos poucos, comecei a sentir um pouco de culpa e remorso.” “Isso durou cerca de um mês, até que recebi uma ligação de um homem estranho, que se identificou como policial.” “Ele suspeitava que minha esposa estivesse envolvida em um caso de desaparecimento na televisão, me fez algumas perguntas e me pediu para ter cuidado.” “Comecei a me sentir aliviado por ter saído da casa dela cedo. Se tivesse demorado mais alguns dias, talvez o desaparecido fosse eu.” “Voltei para o lugar onde estava alugando, requentei a comida fria e engoli tudo de qualquer jeito.” A história da mulher terminou ali. Depois que ela falou, tanto o Número Dois quanto Chen Ge se afastaram dela instintivamente. “Fazia tempo que não ouvia uma história tão interessante.” O homem à esquerda bateu palmas suavemente. Seu olhar para a mulher era bastante invasivo, com um toque de provocação: “As histórias dos três novatos são todas muito interessantes. É realmente difícil escolher.” Depois de falar, ele ergueu a cabeça lentamente para olhar para Chen Ge, os olhos por trás da máscara fixos no rosto dele: “Número Quatro, deixe-me ouvir a sua história.” “Chegou a minha vez?” Chen Ge estava pensando em algo. A Número Três ao seu lado tinha uma voz muito distinta. Só pela voz, Chen Ge já tinha confirmado a identidade dela. A Número Três era uma locutora de uma rádio noturna em Jiujiang, chamada Lizhi. Chen Ge já tinha ouvido o programa dela. Todos na sala estavam ansiosos pela história de Chen Ge, afinal, ele era o quarto novato especial a aparecer. Chen Ge estava num canto da sala, onde ninguém podia ver. Sombras de sangue se moviam atrás dele, como se fios de sangue estivessem tecendo uma roupa vermelha e vívida. “Tenho muitas histórias. Deixe-me pensar por qual começar.”