Capítulo 1190: Paciente Número Dois
Zuo Han parecia extremamente apressado, como se estivesse sendo perseguido por algo o tempo todo. "Fui ao Apartamento Ping'an ontem à noite, e você não estava lá." Chen Ge não queria deixar de ajudar Zuo Han, mas achava que ele ainda era muito jovem e que seria uma pena arriscar a vida assim. "Depois que saí da sua casa mal-assombrada naquele dia, fui alvo dos médicos do hospital. Para me livrar deles, tive que voltar para a Academia Particular do Subúrbio Oeste e usar o poder do Caolho para detê-los." Zuo Han tocou o ferimento no rosto; a dor parecia mantê-lo lúcido o tempo todo. "Ela te ajudou a segurar os médicos, e você pagou com os órgãos do seu corpo?" "Um acordo justo." Zuo Han suspirou levemente: "Os inquilinos do Apartamento Ping'an são pessoas como nós, confiáveis, mas são fracos demais. Este mundo não é tão simples quanto você imagina. Todas as minhas suspeitas estão sendo confirmadas passo a passo. Precisamos da ajuda do Caolho. A existência dela é uma forma de intimidação e também nos permite entender melhor esta cidade." "Tudo bem, vou com você." Chen Ge olhou para o relógio: "Mas preciso sair antes da meia-noite, porque combinei com os inquilinos do Apartamento Ping'an de nos encontrarmos na Rua Liwan depois da meia-noite." "Obrigado." Chen Ge queria deixar o gato branco tomando conta da casa, mas o bicho pulou direto na mochila dele e não saía por nada, como se estivesse determinado a ficar com Chen Ge. Sem escolha, Chen Ge colocou o gato branco junto com o martelo de ferramentas e saiu com a mochila. Zuo Han não entendia muito bem o comportamento de Chen Ge, mas não disse nada. Depois de sair da casa mal-assombrada, Chen Ge ia pegar um táxi, mas Zuo Han o impediu. Eles caminharam por vielas da cidade, andando por um bom tempo, até verem uma van no fim de um beco. "O motorista se chama Tang Jun, também é inquilino do Apartamento Ping'an. Ele perdeu a maior parte da memória, mas segundo ele, costumava ser piloto de corrida." Tang Jun dirigia muito bem; ele pegava estradas secundárias com pouco movimento e, antes das onze da noite, levou Zuo Han e Chen Ge até a Academia Particular do Subúrbio Oeste de Xinhai. O lugar estava abandonado há muito tempo, por razões desconhecidas. Assim que entraram no campus, sentiram uma brisa fria; a temperatura dentro dos muros era bem mais baixa que lá fora. "Vem comigo." Zuo Han não era a primeira vez que entrava na escola abandonada. Ele levou Chen Ge, evitando o prédio de aulas, direto para o prédio multifuncional de laboratórios nos fundos. Dentro do prédio, cadeiras estavam espalhadas por toda parte, cada uma com o nome de um aluno escrito embaixo. Originalmente, os alunos escreviam seus nomes embaixo das cadeiras para não perdê-las durante as assembleias, mas, depois que a escola foi abandonada, aquelas cadeiras com nomes pareciam lápides. "O Caolho está no prédio de laboratórios?" "Sim, mas ela mesma não sabe por que gosta de ficar aqui." Todas as portas do prédio estavam trancadas, cobertas de grafites cruéis e bizarros. Parecia que algo muito ruim tinha acontecido naquela academia particular, e o abandono estava relacionado a isso. No terceiro andar, na passagem para o quarto, havia uma porta de ferro, com uma pilha enorme de cadeiras quebradas na frente, parecendo membros amputados empilhados. Zuo Han encontrou um caminho entre aquelas cadeiras e levou Chen Ge para dentro. "Chegamos, é aqui. Quando entrar, não fale nada. O Caolho tem um temperamento estranho e pode fazer algo contra você." Zuo Han parou na porta da sala de dança do quarto andar. Depois de dar algumas instruções a Chen Ge, ele abriu a porta. Um ar frio cortante veio de encontro a eles. Quando Chen Ge viu o interior da sala de dança, seus ombros tremeram sem controle, e seu coração disparou, como se ele já tivesse estado ali antes, e aquele lugar fosse muito importante para ele. A sala de dança era ampla, com fotos de honra nas paredes, mas os rostos estavam arrancados. No fundo, havia um espelho enorme de corpo inteiro. Todas as janelas estavam lacradas com tábuas, e algumas cadeiras estavam no centro da sala. O ambiente fechado era escuro, opressivo, e carregava uma leve tristeza. Zuo Han tirou um canivete do bolso e passou levemente pelo ferimento no rosto. O buraco do olho esquerdo começou a sangrar. Gotas de sangue vermelho caíam no chão, uma a uma. Zuo Han sentou-se na cadeira com o canivete: "Estou aqui para cumprir o acordo com você." A temperatura na sala de dança caiu ainda mais. As tábuas das janelas estalaram, e o espelho no fundo começou a rachar. Depois de um momento, nada de anormal aconteceu na sala, mas, se olhasse para o grande espelho, veria que, dentro dele, uma mulher de uniforme escolar e um olho só apareceu. No espelho, ela ignorou Zuo Han, que estava sangrando, e ficou atrás de Chen Ge. Suas costas pareciam congeladas; Chen Ge não conseguia nem virar a cabeça. "Quem veio fazer o acordo com você sou eu!" Zuo Han olhou para o espelho com o olho que lhe restava, confuso. O Caolho nunca se interessara tanto por alguém. O que Chen Ge tinha que a atraía? Talvez ouvindo a voz de Zuo Han, letras de sangue começaram a aparecer no espelho: "Me dê sete vidas humanas, e eu entrarei no hospital para pegar seu prontuário." Sete vidas por uma ação do Caolho. Vendo aquilo, Chen Ge franziu a testa. O Caolho, escondido na escola abandonada, combinava perfeitamente com a imagem que ele tinha de um espírito maligno: cruel, frio, aterrorizante, manipulando a natureza humana. "Sete? Ontem não combinamos que eu te daria minha vida, e você entraria no hospital para roubar o prontuário do Paciente Número Um?" Zuo Han se levantou. O sangue escorria pelo ferimento do olho esquerdo, seu rosto todo ensanguentado, parecendo assustador. A mulher de um olho só no espelho continuava atrás de Chen Ge. Ela moveu a mão, e novas palavras apareceram no espelho: "Ou vocês têm outra opção." "Vocês?" Ao ver a escolha de palavras do Caolho, Zuo Han já tinha um mau pressentimento: "Que opção?" As rachaduras no espelho aumentaram, e algumas palavras grotescas surgiram: "Me dê o olho esquerdo de Chen Ge!" Vendo as letras sangrentas no espelho, tanto Chen Ge quanto Zuo Han sentiram que algo estava errado. "Como ela sabe que me chamo Chen Ge?" Chen Ge ficou intrigado. Zuo Han também não entendia. O desejo do Caolho por Chen Ge era muito maior do que por ele: "Um olho de Chen Ge vale sete vidas humanas?" A troca sangrenta fez Zuo Han pensar. Seu olhar ia do espelho a Chen Ge. Ninguém falava na sala de dança; todos pesavam os prós e contras. Sinceramente, Chen Ge também queria muito ver o prontuário do Paciente Número Um. Ele sentia que aquele paciente estava ligado à criança que foi colocada em sete potes, e era a chave para resolver o mistério. "Se eu te der meu olho esquerdo, você pode garantir que vai trazer o prontuário do Paciente Número Um do hospital?" Chen Ge não sabia o poder do Caolho. Para ele, o hospital era insondável, quase impossível de enfrentar sozinho. Depois de um momento, letras de sangue apareceram no espelho: "Não, mas esta é a última chance de vocês." Dar o olho esquerdo sem garantia de conseguir o prontuário. Chen Ge hesitou. "Chen Ge, cancela o acordo, vamos embora." Zuo Han pareceu perceber algo. Seu olhar fixou-se em Chen Ge, dando-lhe um sinal, e ele se levantou para sair. Assim que os dois se moveram, a porta da sala de dança se fechou. Não havia nada na sala, mas Chen Ge e Zuo Han sentiram como se fossem ser esmagados. "Deixem algo aqui, e depois vão." A mulher de um olho só no espelho estava em meio às letras de sangue. Seu braço pálido e cheio de cicatrizes ergueu-se lentamente, e o corpo de Chen Ge começou a ser puxado em direção ao espelho. "Chen Ge!" Zuo Han segurou o ombro de Chen Ge, mas não conseguiu detê-lo; foi arrastado junto até a frente do espelho. Olhando para a mulher no espelho, Chen Ge sentiu uma mistura de familiaridade e estranheza. Familiar era a cena; estranha era a pessoa diante dele. O braço da mulher de um olho só se estendeu para frente, tocando o espelho. O sangue se espalhou, e aquele braço pálido e cheio de cicatrizes atravessou o espelho, alcançando Chen Ge. Suas pupilas se contraíram. A mulher de um olho só nos olhos de Chen Ge se sobrepôs lentamente a outra figura. Quase instintivamente, ele murmurou um nome: "Zhang Ya?" Ao ouvir aquele nome, a mão estendida da mulher parou. A mão que ia agarrar o coração de Chen Ge pairou no ar, e no final só pegou um fio de cabelo dele. Todas as letras de sangue no espelho desapareceram. A mulher de um olho só olhou profundamente para Chen Ge e entrou no mundo atrás do espelho. A temperatura na sala de dança voltou ao normal. Zuo Han, ao lado de Chen Ge, estava coberto de sangue, quase sem acreditar que o cruel Caolho tinha deixado os dois irem. "Você conhecia o Caolho antes? Senti que, por um instante, ela ficou com medo." "Vamos sair daqui primeiro." A cena da mulher no espelho mexeu com a memória de Chen Ge. Quando a figura de Zhang Ya se sobrepôs à da mulher de um olho só, ele se sentiu como se tivesse sido atingido por um raio, uma sensação há muito perdida veio à tona. Ele tinha certeza de que Zhang Ya já tinha aparecido daquela forma. "Os sonhos de Zhang Ya devem esconder a verdade. Quando o Caolho ouviu o nome de Zhang Ya, sua expressão mudou claramente. Só o nome 'Zhang Ya' a abalou, o que significa que Zhang Ya pode ser um fantasma ainda mais aterrorizante que o Caolho!" Como Zhang Ya era alguém próximo, Chen Ge antes pensava mais em protegê-la, evitar que se machucasse, mas agora percebia que a verdade parecia não ser essa. "Preciso conversar seriamente com ela." Em vez da promessa do Caolho, Chen Ge agora tinha uma nova direção. Ao sair da Academia Particular do Subúrbio Oeste de Xinhai, a van de Tang Jun estava do lado de fora. Depois de entrar no carro, Zuo Han e Chen Ge finalmente respiraram aliviados. "Então é assim que é um espírito maligno? Que aterrorizante." Chen Ge não se sentiu tão mal ao conviver com os inquilinos do Apartamento Ping'an, mas, depois de encontrar o Caolho, ele soube o quão assustador um espírito maligno pode ser. "Chen Ge, não entendo uma coisa: como o Caolho sabia seu nome? Vocês deveriam estar se vendo pela primeira vez!" Zuo Han ainda pensava nisso. "Perdi minhas memórias antigas; talvez o Caolho já tenha sido meu amigo." Era a explicação mais razoável que Chen Ge conseguia imaginar. "Um olho seu vale sete vidas humanas. Espíritos malignos não mentem sobre os termos de troca. Parece que preciso repensar as coisas." Zuo Han coçou o queixo: "No hospital, você era o paciente mais especial. Os médicos tratavam os outros pacientes como remédio para você. Agora, fora do hospital, os espíritos malignos também acham você especial." "Às vezes sinto que esta cidade foi construída especialmente para me tratar. Todos os vestígios foram apagados, só deixando o que o hospital quer que eu veja." No caminho, Zuo Han e Chen Ge conversaram sem parar. Fora do hospital, eles finalmente podiam falar à vontade. À meia-noite, Tang Jun levou Chen Ge e Zuo Han até a Rua Liwan. Aquela rua antiga ficava no subúrbio leste de Xinhai, era o ponto final do ônibus 104, muito isolada, e raramente alguém ia até lá. "Os inquilinos já devem ter chegado. Você sabe como contatá-los?" Chen Ge olhou para Zuo Han e Tang Jun, e ambos balançaram a cabeça. "É a primeira vez que venho à Rua Liwan." Depois de descer do carro, Zuo Han olhou em volta. As luzes dos postes dos dois lados da rua piscavam, e não havia vivalma. "Vocês notaram que todas as sombras das coisas nesta rua estão tortas?" Tang Jun, que estava em silêncio, falou de repente, esforçando-se para se lembrar: "Desde que cheguei aqui, sinto uma familiaridade. Antes, eu vinha aqui para correr com carros." "Sombra?" Chen Ge olhou para baixo e percebeu algo ainda mais estranho. Todas as sombras das coisas e pessoas na rua estavam tortas, mas a dele estava normal. "Tem algo errado." Os três entraram na rua. As lojas e prédios dos dois lados estavam com portas e janelas fechadas, sem sinal de vida. Atravessaram a rua inteira e chegaram a uma área residencial no fundo da Rua Liwan. Assim que passaram pelo portão, foram envolvidos por uma sensação de frio. A área residencial parecia um mundo diferente do lado de fora. Com um pressentimento, Chen Ge ergueu a cabeça e viu, na janela do quarto andar de um prédio, uma menina de vestido vermelho sangue olhando para ele. "É a Carmesim?" A porta do prédio foi aberta, e o homem de meia-idade, Sr. Zhou, apareceu: "Não enrola, vem logo!" Os três entraram no prédio e, guiados pelo Sr. Zhou, encontraram a Carmesim. O Sr. Zhou e Men Nan iam apresentar Chen Ge, mas, antes que pudessem falar, a menina chamada Carmesim foi até Chen Ge. Então, ela fez algo muito estranho. A criança de vestido vermelho se agachou ao lado de Chen Ge, passando a mão suavemente sobre a sombra dele. Depois de um momento, ela ergueu a cabeça, e letras de sangue grotescas apareceram ao redor dela. "Depois que segui meu instinto e vim para esta rua antiga, um homem com sombra normal estava aqui me esperando. Ele disse que era o Paciente Número Dois e que precisava da minha ajuda." Olhando para as letras de sangue no chão, todos na sala ficaram pasmos. As sombras de todos estavam tortas, só as de Chen Ge e do Paciente Número Dois eram normais. "O que ele queria que você fizesse por ele?" Chen Ge perguntou instintivamente. Seu instinto dizia que a resposta era muito importante para ele. "Ele queria que eu me tornasse sua sombra." A menina chamada Carmesim tinha os olhos fervilhando de sangue, como se já tivesse recuperado parte de suas memórias.