Capítulo 1161: A Cruel Realidade?
As memórias se transformaram em fragmentos; cada vez que tentava recordar, Chen Ge sentia uma dor de cabeça insuportável. Ele suportava em silêncio, as veias azuis se destacando em suas mãos que apertavam o lençol.
Vendo Chen Ge tão sofrido, Xu Wan não continuou a falar. Ela segurou o braço dele: "Sei que está passando mal. Depois de comer, durma bem."
Xu Wan pegou a comida na mesinha de cabeceira e começou a alimentá-lo com uma colher, aos poucos.
As papilas gustativas sentiam claramente o aroma dos vegetais e da carne, incrivelmente real.
Chen Ge engolia a comida mecanicamente, o olhar um tanto vago.
Os fragmentos de memória que ocasionalmente surgiam em sua mente lhe diziam que tudo o que Xu Wan dizia era verdade: ele realmente estivera sempre procurando pelos pais e raramente dirigia para algum lugar.
Quanto mais pensava nisso, mais repulsa sentia por dirigir.
Pegando um lenço de papel, Xu Wan limpou a boca de Chen Ge: "Se precisar de algo, me chame a qualquer hora. Descanse bem. Se se recuperar bem, poderá sair da ala de isolamento ainda hoje. Sei que você quer muito voltar para a ala comum."
"Por que eu quero tanto voltar para a ala comum? Ficar na ala de isolamento seria perigoso?" As palavras "ala de isolamento" deixaram Chen Ge desconfortável; ele tinha uma impressão muito forte dessas quatro palavras em sua mente.
"Aqui não há perigo algum, ninguém vai te machucar. Você quer voltar para a ala comum só porque lá pode ver a paisagem do lado de fora do muro do hospital." Xu Wan saiu com a tigela e os talheres.
"Ver a paisagem do lado de fora do muro?"
Depois que Xu Wan saiu, o quarto ficou em silêncio novamente. Chen Ge deitou na cama; se não pensasse em nada, a dor em várias partes do corpo diminuía um pouco.
O sol incidia sobre ele, a cabeça apoiada no travesseiro limpo. Chen Ge fitava a janela.
O dia estava ensolarado, com algumas nuvens livres flutuando no céu azul. A única coisa que quebrava a harmonia era a tela de metal na janela.
"A tela é para impedir a entrada de ladrões ou para evitar que os pacientes fujam?"
O ambiente do hospital era muito bom, confortável de se estar, mas Chen Ge sentia uma inquietação inexplicável; ele não sabia do que tinha medo.
Sempre que tentava se esforçar para lembrar, sentia uma dor aguda. Quando não pensava em nada, ficando como um boneco deitado na cama, a dor desaparecia lentamente.
Movendo o corpo devagar, Chen Ge tentou controlar os músculos. Levou cerca de uma hora até conseguir se sentar na cama por conta própria.
"Pulsos e tornozelos com marcas roxas profundas das amarras, hematomas nas costas e ombros, perna esquerda engessada, rosto arranhado..." Chen Ge examinava o próprio corpo. Seu olhar se moveu lentamente até parar no dorso da mão, onde havia um ferimento em forma de gota de sangue.
"Como esse ferimento apareceu?"
Assim que começou a pensar, seus nervos cerebrais pareceram ser puxados com força por uma mão; a dor lancinante quase o levava à loucura.
"Puf!"
A porta do quarto foi aberta novamente. O Dr. Gao entrou sozinho, segurando uma pasta de documentos. Quando viu Chen Ge já sentado, sua expressão foi de surpresa: "Parece que você está se recuperando bem."
"Dr. Gao, minha cabeça dói muito." Chen Ge estava sentado na beira da cama, ainda muito fraco.
"Ainda não é hora de tomar remédio. Vamos, faça comigo: cruze as mãos sobre o peito e respire fundo." O Dr. Gao o orientou pacientemente. Quando Chen Ge se acalmou, ele puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama: "Você se lembra do que aconteceu ontem à noite?"
"Ontem à noite?"
"Você teve uma crise ontem à noite, parecia ter alucinações graves. Chamei três enfermeiros para te conter." O Dr. Gao tirou do bolso um relógio mecânico, olhou as horas e o colocou na mesinha de cabeceira.
O relógio mecânico emitia um som muito fraco ao mover os ponteiros, acompanhando um ritmo específico.
"Conte-me, como se estivesse conversando com um amigo. Não precisa se preocupar. Diga o que pensar ou o que viu, pode me contar." O Dr. Gao sorria: "Só preste atenção a uma coisa: não minta, não diga nada que vá contra o seu coração."
"Não me lembro. Só sei que entrei em um hospital escuro e sinistro ontem à noite." As memórias em sua mente já estavam em fragmentos; ChenGe abaixou a cabeça, com expressão de dor.
"Qual era o nome daquele hospital? O que você viu lá? Havia mais alguém com você?" Acompanhado pelo som dos ponteiros do relógio, o Dr. Gao fez a próxima pergunta.
"O hospital também parecia se chamar Novo Centro Hospitalar de Haishi. Vi vários tipos de texto. Quem entrou comigo foi... Zhang Ya?" Um nome surgiu de repente na mente de Chen Ge. Assim que o disse instintivamente, segurou a cabeça imediatamente; a dor intensa o fez se encolher na cama, gritando sem parar: "Dói muito! Minha cabeça dói!"
O Dr. Gao suspirou levemente, abriu o frasco de remédio e deu mais dois comprimidos brancos a Chen Ge.
Depois de tomar o remédio, os sintomas de Chen Ge aliviaram um pouco. Ele se deitou novamente na cama, com o rosto pálido de assustar.
"Sua condição piorou. Ontem à noite você ficou o tempo todo no Novo Centro Hospitalar de Haishi, não foi a lugar nenhum. Aquele hospital sombrio e assustador que você viu é este aqui." O Dr. Gao, vendo que Chen Ge se acalmara, apontou ao redor: "Você acha este lugar sombrio e assustador?"
O sol iluminava o quarto, que estava limpo e arrumado; não tinha nada a ver com terror ou escuridão.
"Talvez o lugar de dia seja diferente do de noite." Chen Ge sentia vagamente que já tinha dito algo parecido em algum lugar.
"O hospital não muda de dia ou de noite. Os edifícios não têm vida; quem realmente muda é você." O Dr. Gao falou devagar: "O você de dia é completamente diferente do você de noite."
"Eu?"
"O você de dia consegue se comunicar normalmente, mas o você de noite parece um animal selvagem." O Dr. Gao colocou a pasta de documentos na cama: "No começo, achamos que era apenas estresse pós-traumático. Depois, descobrimos que você também tem um grave transtorno delirante. E recentemente, encontramos evidências de outra personalidade em você."
"Outra personalidade?" O cérebro de Chen Ge estava um pouco lento; receber tantas informações ao mesmo tempo o deixava incapaz de processá-las.
"Primeiro, veja a gravação de vigilância de ontem à noite." O Dr. Gao pegou o celular, que era todo branco e tinha uma tela grande.
Apertou o play, e a tela começou a mostrar uma gravação borrada.
Chen Ge, deitado na cama, sentou-se de repente. Arrastando a perna engessada, apoiou-se na parede e foi furtivamente até a porta do quarto.
Quando deu meia-noite, ele abriu a porta para fugir do hospital, mas foi visto por um enfermeiro de plantão. Imediatamente, houve um confronto. Na tela, Chen Ge parecia uma fera, gritando coisas que ninguém entendia, lutando desesperadamente com o enfermeiro.
Dois ou três minutos depois, outros dois enfermeiros chegaram, e os três juntos conseguiram conter Chen Ge, levando-o para a ala de isolamento.
A gravação não terminava aí. Chen Ge, deitado na cama, se debatia com todas as forças, os olhos vermelhos, quase sangrando.
Seu corpo se contorcia, como se estivesse sofrendo uma dor inimaginável. Sua boca se abria e fechava, urrando, como se estivesse gritando de dor.
"Sou eu?" Chen Ge, deitado na cama, assistia à gravação em silêncio, sem se lembrar de nada daquilo.
"Ele é você, e não é você. Para ser preciso, é sua segunda personalidade. Ela existe por causa da sua doença." O tom do Dr. Gao era muito sério: "Você tem consciência da existência dele. Sempre dependeu dele, só não quer admitir."
"Não, sou apenas eu mesmo. Não há ninguém mais dentro de mim." Chen Ge balançou a cabeça firmemente.
"Tem certeza?" O Dr. Gao tirou uma página da pasta: "Nas histórias bizarras que você me contou antes, havia um fantasma que sempre te protegia, um espírito maligno que te guardava sem pedir nada em troca, que via a proteção a você como o único sentido de sua existência."
Com as veias da testa saltando, antes que a dor chegasse, Chen Ge assentiu: "Lembro-me dele. Não é invenção minha..."
"Você se lembra do sobrenome do seu pai?" O Dr. Gao mudou de assunto de repente.
"Chen."
"Qual é o seu nome?"
"Chen Ge."
"Qual é o sobrenome da sua mãe?"
"Xu."
"Pense novamente: qual é o nome daquele fantasma?" O Dr. Gao falava muito rápido, sem pausas entre as perguntas.
"Ele se chama... Xu Yin." Chen Ge segurou a cabeça com dor.
O Dr. Gao colocou a pasta na frente de Chen Ge, apontando para um registro de um mês atrás: "O nome que você deu à sua segunda personalidade foi Xu Yin. O você de dia se chama Chen Ge, o você de noite se chama Xu Yin. O fantasma que nunca te abandonou, que suportou toda a dor, que te protegeu sem pedir nada, é na verdade você mesmo."
"Impossível!"
"É normal que você não tenha percebido. Pela minha observação, a segunda personalidade surgiu principalmente porque você colocou pressão demais em si mesmo. Precisava de uma personalidade para suportar a dor e te ajudar."
"Absolutamente impossível! Xu Yin é real! Eu me lembro dele!"
"Ele é real, sim, mas só existe nas suas histórias, na sua mente." O Dr. Gao falava com um tom muito suave: "Toda vez que você acordava de um coma, eu era o primeiro a conversar com você, também seu primeiro ouvinte. Nas suas histórias, Xu Yin sempre aparecia quando você estava em perigo. Ele não era muito forte, mas dava tudo de si para te ajudar a superar as dificuldades. Pense bem: aquela figura solitária e frágil não te parece familiar? Não se parece com você mesmo?"
Sob a orientação do Dr. Gao, a figura na mente de Chen Ge ficou borrada e lentamente se sobrepôs à sua própria.
Solidão, dor, tristeza que não podia ser compartilhada... Eles tinham muitos pontos em comum.
"Xu Yin, Chen Ge..." Diferentes fragmentos de memória surgiam na mente de Chen Ge. Ele não sabia em quem acreditar, mas logo se recompôs: "Impossível. Se Xu Yin é minha segunda personalidade, então minhas experiências anteriores deveriam ser falsas. Mas me lembro claramente: tudo é real! Fantasmas existem de verdade! Xu Yin também é real!"
Chen Ge se agarrava desesperadamente aos fragmentos de memória que surgiam em sua mente. A razão lhe dizia que o Dr. Gao provavelmente estava certo, mas ele simplesmente não conseguia acreditar.
"Não existem fantasmas no mundo. A coisa mais assustadora é o coração humano." Cada palavra do Dr. Gao ressoava em Chen Ge. Seu subconsciente achava que o Dr. Gao estava certo, mas, ao mesmo tempo, sentia uma inquietação inexplicável.
"Vamos. Já providenciei sua transferência de volta para a ala comum. Espero que você melhore logo." O Dr. Gao chamou Xu Wan, e os dois ajudaram Chen Ge a sair da ala de isolamento.
No corredor limpo e iluminado, flutuava um leve cheiro de desinfetante. As portas dos quartos estavam trancadas, e as janelas cobertas por cortinas finas; do corredor, não se via o interior dos quartos.
Atravessando o corredor, do lado de fora estava mais barulhento; muitos pacientes estavam no corredor.
"Com licença."
O Dr. Gao levou Chen Ge ao primeiro quarto na esquina do segundo andar. O quarto era muito maior que o anterior, com três camas.
"Você deve se lembrar de qual cama era a sua, não?" O Dr. Gao perguntou em voz baixa, mas Chen Ge parecia confuso.
"Parece que você esqueceu de novo. Não tem problema, vá com calma. Quando a lesão no seu cérebro se recuperar completamente, a dor deve passar." O Dr. Gao ajudou Chen Ge a se deitar na cama perto da janela.
Sentado na beira da cama, Chen Ge olhou pela janela. Do lado de fora da grade de proteção, havia um parque de diversões de tamanho médio.
Da cama de Chen Ge, dava para ver o parque inteiro.
A maioria dos visitantes estava concentrada no lado leste do parque, longe do Novo Centro Hospitalar de Haishi, onde havia muitas atrações de alta tecnologia. Já a metade oeste do parque, perto do hospital, era mais tranquila, com poucos visitantes.
No lado oeste, a maioria eram atrações antigas, sendo a mais visível uma casa mal-assombrada.
Ao ver a casa mal-assombrada, as memórias na mente de Chen Ge começaram a se agitar. Ele segurou a cabeça, mas não desviou o olhar; suportou a dor, fitando a casa mal-assombrada no lado oeste do parque.
"Este é o Novo Século Parque?"
"Este parque se chama Novo Parque de Haishi. Você costuma ficar na janela olhando para ele o dia inteiro."
"Lembrei de algumas coisas." Chen Ge puxou o próprio cabelo; veias finas apareciam em seu rosto, e suor escorria de sua testa: "Eu trabalhei no parque. Herdei a casa mal-assombrada dos meus pais. Tenho uma casa do terror que eles deixaram!"
"Como ela?" Em comparação com o tom exaltado de Chen Ge, a voz do Dr. Gao era muito calma. Ele apontou para a entrada da casa mal-assombrada no parque.
Chen Ge seguiu a direção indicada pelo Dr. Gao. Na entrada da casa mal-assombrada, havia uma mulher vestida de fantasma. A maquiagem no rosto estava manchada de suor, e ela usava um vestido vermelho. Naquele momento, segurava uma placa de propaganda, vendendo ingressos na frente da grade da casa mal-assombrada.
"Zhang Ya?" Ao ver o rosto da mulher, Chen Ge ficou atônito.
"Para te tratar, fui lá perguntar. Na sua história, você se apropriou da identidade dessa mulher. A família dela já tinha uma casa mal-assombrada aqui há dez anos; desde a geração dos pais, eles administram o negócio." O Dr. Gao balançou a cabeça, olhando para Chen Ge com um pouco de pena: "Quem vive de administrar uma casa mal-assombrada no parque é ela. Você só fica escondido atrás da janela do hospital, observando-a. Nunca trocou uma palavra com ela; só visitou a casa mal-assombrada uma vez, há muito tempo, e sabe que ela se chama Zhang Ya."
"Impossível! Ela é um fantasma, o fantasma mais importante para mim!" Outra dor aguda surgiu no cérebro de Chen Ge.
"Se você realmente se importa tanto com ela, espere ficar bom e vá procurá-la pessoalmente. Do jeito que está, você vai assustá-la." O Dr. Gao ajudou Chen Ge a se deitar na cama.