Capítulo 1144: A Perspectiva da "Vítima"
Às onze horas da noite, as luzes do dormitório masculino do Primeiro Ensino Médio de Xinhai se apagaram.
Os três alunos do dormitório 408 já haviam fechado portas e janelas e se deitado em suas camas antes do apagão.
— Lao Cao, você tem certeza de que viu cinco pessoas no dormitório ontem à noite? — perguntou um aluno robusto sentado na cama número dois, perto da janela, vestindo um uniforme de basquete. Na parede ao lado, havia um pôster de um jogador famoso.
— Por que eu mentiria? — respondeu o aluno da cama número um, de tronco nu, com duas lanternas de emergência ao lado do travesseiro e um pingente de jade no pescoço. — No começo, também achei que aquela carta de maldição era brincadeira e não levei a sério. Quem diria que ontem à noite realmente apareceria uma pessoa a mais no dormitório?
Cao Fei, da cama número um, apontou para a janela ao lado da cama dois: — O rosto daquela pessoa estava colado no vidro. Eu vi com meus próprios olhos ele abrir a porta da varanda e entrar. Durante todo o processo, ele ficou me encarando.
— Então ele estava parado ao lado da minha cama? Poxa! Por que você não gritou na hora?!
— Eu queria falar, mas não conseguia emitir nenhum som. Sabe o que é paralisia do sono? Era exatamente aquela sensação! — Cao Fei gesticulava com as mãos.
— Descreva direito como era a aparência daquela pessoa? — O magricela alto da cama número três tirou os óculos e esfregou os olhos. Nos livros ao lado de sua cama, estava escrito seu nome — Tian Yuan.
— Não me lembro direito. Só sentia que era uma pessoa. Ele ficou me encarando e foi se aproximando devagar. — Cao Fei acendeu a lanterna de emergência enquanto falava: — Vou dormir com a luz acesa hoje. Vocês se importam, rapazes?
— Olha só essa cara de medo. Acho que você fez tanta coisa errada que começou a se assustar sozinho. — Tian Yuan pegou um livro ao lado e começou a ler. Era um aluno muito dedicado, mas também um valentão. — Aliás, quem te deu aquela carta de maldição? Alguém não está gostando de você e quer te dedurar?
— A carta foi minha namorada quem recebeu. Com medo de que ela se assustasse, pedi a carta para mim. Quem diria que o conteúdo da carta realmente se realizaria? — A luz da lanterna iluminava o rosto de Cao Fei, e só de lembrar do ocorrido, sua testa começava a suar frio.
— Na hora de bancar o herói, você é o primeiro. Agora que está sofrendo, arrastou todos nós para essa enrascada. Você é foda. — O aluno de camisa de basquete na cama dois falou com um tom ácido. — Poxa, quando é que vou arrumar uma namorada? Será que as garotas de hoje não gostam mais de caras fortes e atléticos?
— Irmão Zhuang, não arrastei ninguém para isso. A carta já foi para Hu Yuan. Ele não está no dormitório hoje, então o fantasma deve ter ido para a casa dele. — Cao Fei falou baixinho: — Amanhã, quando ele vier para a aula, vamos sondar o que ele diz e assustá-lo um pouco. Vamos fazer de tudo para que ele não volte ao dormitório nos próximos dias, deixando o fantasma na casa dele.
— E se ele insistir em voltar para dormir? — Tian Yuan recolocou os óculos.
— Aquele frango não teria coragem de resistir. E mesmo que resistisse, o que poderia fazer? — Cao Fei menosprezava Hu Yuan. — A única coisa que me agrada nele é que a irmã dele é bonita.
— Que horas são! Ainda não dormiram? Apaguem a luz! — Bateram na porta do dormitório. O inspetor do alojamento gritou do lado de fora.
Os rapazes dentro apressaram-se a apagar a luz. Depois que o inspetor foi embora, Cao Fei cobriu a lanterna com um cobertor e disse baixinho: — Hoje não vou dormir. Vou deixar o celular ligado o tempo todo para filmar o fantasma.
— Boa sorte. Se filmar, lembre-se de nos acordar.
O dormitório ficou em silêncio, ninguém mais falou.
Cao Fei cobriu a cabeça com o cobertor e começou a conversar com a namorada.
Os jovens apaixonados sempre têm inúmeros assuntos para conversar, e sem perceber, já passava da meia-noite.
Olhando para a bateria do celular, Cao Fei se preparou para dar boa noite à namorada. No dormitório do colégio não havia lugar para carregar o celular; só no dia seguinte, na sala de aula.
Seus dedos deslizavam pela tela. Antes mesmo de digitar "boa noite", ouviu um som estranho, como se a porta do quarto tivesse se movido.
Ele imediatamente puxou o cobertor e olhou para a porta do dormitório.
A porta estava fechada, sem nada de anormal.
Ele olhou ao redor. O dormitório estava tão silencioso que ele conseguia ouvir a respiração dos colegas e as batidas do próprio coração.
— Irmão Zhuang? Irmão Yuan? Vocês já dormiram?
Ninguém respondeu. Cao Fei cobriu a cabeça com o cobertor novamente, desta vez deixando apenas os olhos de fora.
A tela do celular piscava sem parar. A namorada havia enviado novas mensagens. Cao Fei sentia um medo inexplicável; a única pessoa com quem podia conversar naquele momento era a namorada.
— Cao Fei? Por que parou de falar de repente? Já dormiu? Fala mais um pouco comigo, estou com um pouco de medo.
— Xiaolu, nosso dormitório ficou muito silencioso de repente. Até o zumbido dos mosquitos sumiu. Que estranho!
— Não me assusta! Você já entregou aquela carta de maldição?
— Entreguei para um cara do nosso dormitório. Ele não está aqui hoje. — Enquanto Cao Fei digitava, ouviu novamente um som estranho, como se uma torneira não estivesse bem fechada e gotas d'água caíssem no chão, plim, plim.
— Então está tudo bem, pode ficar tranquilo. A maldição já pegou outra pessoa.
— Tomara. — Cao Fei respondeu, desviou o olhar da tela e deu uma olhada na janela.
Assim que seus olhos se fixaram, seu olhar congelou. Havia um rosto do lado de fora da varanda!
Ele piscou. Num piscar de olhos, o rosto já estava colado no vidro da janela.
Sangue escorria pelo vidro. A maçaneta da porta que ligava a varanda ao quarto começou a girar sozinha.
Cao Fei segurava o celular com força, o coração batendo descompassado. Suas mãos e pés estavam gelados, e ele sentia como se fosse sufocar.
A porta da varanda, trancada por dentro, foi se abrindo lentamente. A temperatura do quarto caiu drasticamente. Com o som de gotejamento, um homem completamente encharcado, vestindo roupas vermelhas, apareceu no dormitório.
Ele se aproximava cada vez mais. A expressão de Cao Fei já estava distorcida, mas seu corpo não conseguia reagir.
Água com sangue escorria, e um cheiro nauseante de sangue invadia suas narinas!
O cabelo molhado colava no rosto. Um olho, com apenas a parte branca visível, encarava Cao Fei por entre as mechas de cabelo preto.
— Por quê? Já entreguei a carta de maldição! Por que o fantasma ainda aparece?
O coração de Cao Fei parecia ser apertado por um par de mãos. Seus olhos estavam arregalados ao máximo.
— Por que você sempre me maltrata? — Com o som das gotas caindo, uma voz rouca saiu de entre os cabelos pretos.
Cada vez que Cao Fei piscava, a figura aparecia mais perto dele.
— Por que você me deu aquela carta?
O corpo encharcado encostou na cama. O olho, todo branco, fitava Cao Fei: — Por que xingou minha irmã? Por que nunca me deixa em paz? Por quê? Por quê!
A voz era feroz e enlouquecida. A roupa vermelha encharcada colou-se de repente ao rosto de Cao Fei.
O cabelo preto molhado grudou no rosto de Cao Fei. Um rosto pálido de morto encarava fixamente os olhos de Cao Fei: — Por que você me matou!
— Você é Hu, Hu Yuan... — O corpo encostado na cama, Cao Fei estava gelado. Seus olhos viraram para cima. Aquela cena já havia ultrapassado seu limite psicológico. Seu corpo desabou na cama, e um cheiro desagradável de urina surgiu no ar.
— Quando maltrata os fracos, você age como um demônio. Quando encontra um demônio de verdade, se sai pior do que aqueles que você maltrata. — A figura fantasmagórica de roupa vermelha encharcada pegou o celular de Cao Fei e olhou as mensagens.
"O que está fazendo? Por que parou de me responder de repente?"
"Ainda está preocupado com a carta de maldição? Contanto que você a entregue a outra pessoa, a maldição nunca vai te procurar."
"Fique tranquilo, a maldição só vai matar o último azarado. Nós dois vamos ficar bem."
Lendo as mensagens uma por uma, a figura fantasmagórica de roupa vermelha exibiu um sorriso sinistro.
...
Era quase uma da manhã. Os colegas de quarto já tinham ido dormir, mas Zhang Lu ainda mantinha a lanterna de emergência acesa, como se não houvesse ninguém por perto.
Ela colocou os pés sobre a mesa, colando algo nas unhas enquanto olhava para a tela do celular.
— Por que ainda não respondeu? — Os dedos de Zhang Lu deslizaram pela tela, e ela digitou uma frase: "Fique tranquila, a maldição só vai matar o último azarado."
A tela escura de repente se iluminou. Cao Fei finalmente respondeu.
"Onde você está agora?"
Zhang Lu achou estranho e respondeu: "Estou no dormitório! Por quê?"
"Vou aí agora!"
"Agora?" Zhang Lu olhou a hora no celular e digitou algumas palavras: "Não brinca, já é uma da manhã."
"Já saí do dormitório masculino!"
"Você veio mesmo?"
"Já estou na entrada do seu prédio!"
"Mas a porta do dormitório feminino já está trancada?"
"Já estou no primeiro andar!"
"Primeiro andar?" Zhang Lu olhava as mensagens no celular, que chegavam cada vez mais rápido. Sentiu uma inquietação inexplicável.
"Cao Fei, não me assusta."
"Já estou no segundo andar!"
"Já estou na curva do terceiro andar!"
"Já estou na porta do seu dormitório!"
As mensagens no celular transmitiam uma sensação estranha e assustadora. Zhang Lu segurava o celular, sentindo vagamente que quem estava enviando as mensagens não era Cao Fei.
"Quando Cao Fei estava conversando comigo, ficou um bom tempo sem responder. Disse que tinha visto um fantasma." Quanto mais Zhang Lu pensava, mais medo sentia. Ela se preparou para acordar as outras do dormitório, mas ninguém lhe deu atenção.
Depois de alguns segundos, não chegou nenhuma nova mensagem. Zhang Lu olhou para a tela do celular e se aproximou silenciosamente da porta do dormitório.
Reunindo toda a sua coragem, abriu a porta lentamente.
No corredor escuro, o vento frio soprava. Lá fora, não havia nada.
"É uma brincadeira de mau gosto." Zhang Lu mordeu os lábios. Assustada, com o rosto pálido, enviou uma mensagem de áudio para Cao Fei: "Você acha isso divertido? Onde você está agora?"
Pouco depois, o celular de Zhang Lu recebeu outra mensagem.
"Olhe para trás."
Zhang Lu se virou lentamente. Um rosto pálido de morto apareceu atrás dela: "Por que você me matou?"
...
Desligando o telefone, Wei Lijie xingou baixinho e entrou no banheiro do apartamento.
"Por que tem tanta gente rica no mundo e eu não posso ser uma delas?" Ele parecia ter bebido muito. Tonto, sentou-se no vaso sanitário e olhou as conversas no WeChat: "Chantagear alunos do ensino médio não rende muito dinheiro, e ainda tenho que dividir com Cao Meng. Droga! Fica me dando ordens o tempo todo, pensa que é o chefão? Um dia, quando eu estiver acima de você, vou acabar com você..."
Wei Lijie, ao falar isso, sentiu o pescoço pesado. Levantou a cabeça, tonto, e viu um homem de roupa vermelha encharcada parado em cima dele.
Água com sangue escorria pela roupa. Wei Lijie piscou, e a bebida evaporou de susto.
"Quem te deu essa carta de maldição?"
"Cao, Cao, Cao Meng!" O homem, sem nem vestir as calças, pulou e bateu na porta do banheiro. Correu para a sala, mas tropeçou nas calças.
O som de sangue gotejando chegou aos seus ouvidos. Ele rastejou desesperadamente em direção à porta, até bater a cabeça em algo.
Olhou para cima. Um homem gordo, de porte exagerado, estendia a mão para o seu rosto.
"Socorro! So...!"
...
Cao Meng, que estava se divertindo em uma boate, recebeu de repente uma ligação de Wei Lijie. Não entendia o que o outro dizia. Irritado, entrou sozinho no banheiro da boate.
"Fala logo, ou cala a boca!"
Esperou impacientemente por um momento. Quando ia desligar, uma voz estranha veio do outro lado: "Por que você me deu aquela carta de maldição?"
"Que carta?"
"Você quer me matar?"
"Wei Lijie, vou te dizer uma coisa: quero que você morra mesmo. O que você vai fazer? Ficou corajoso, foi?" Cao Meng desligou o telefone. Sua cabeça ainda estava na garota com quem dançara.
Segurou a maçaneta da porta do banheiro. Quando ia sair, uma mão pálida apareceu de repente sobre a maçaneta!
"Puta merda!"
Cao Meng olhou para o lado, mas não havia nada.
"Bebi demais?"
Enquanto se perguntava, ouviu um som sutil vindo de dentro de uma cabine do banheiro, como se fosse a voz de uma mulher.
Aproximou-se lentamente da cabine. Quando estava quase chegando, a porta se abriu, e uma perna fina, branca como papel, apareceu.
"Uma mulher entrou no banheiro masculino da boate?" A mente de Cao Meng se agitou. Aproveitando a bebida, fixou o olhar na perna fina.
Enquanto olhava fixamente, uma cabeça belíssima caiu ao lado da perna.
Seu corpo parou. Naquele momento, Cao Meng sentiu como se seu coração tivesse parado.
Sua mente ficou em branco. Ele desabou no chão.
...
Às quatro e quarenta da manhã, Lan Xiaochen, depois de escrever uma crítica negativa para um filme de terror, começou a discutir alegremente com os fãs do filme.
Era a hora mais feliz do seu dia. A opressão do dia se dissipava naquele momento. Ele adorava ver os outros irritados, sem poder alcançá-lo pela internet.
"Gente ocupada como eu tira um tempo precioso para avaliar vocês, e vocês ainda não agradecem?" Depois de xingar por trinta comentários, até ser silenciado pelo moderador, ele bateu forte no teclado: "Que covardes. Mas tudo bem."
Ele deu uma risada fria e criou várias contas falsas para começar a xingar na crítica, usando as palavras mais pesadas para amaldiçoar.
"Tomara que minhas maldições se realizem e destruam o que esses lixos valorizam."
Lan Xiaochen olhava fixamente para o ID do moderador na tela. Vendo todas as contas falsas e comentários serem deletados, ele pegou um envelope da gaveta: "Só sobrou uma carta. Será que funciona se eu escrever só o ID da internet?"
O tempo passava. Às quatro e quatorze, Lan Xiaochen colocou a carta escrita no envelope. Mas antes que pudesse lacrá-lo, todas as luzes do quarto se apagaram de repente.
"Faltou energia?"
A luz da rua entrava pela janela. Com a claridade fraca, Lan Xiaochen percebeu várias sombras se movendo dentro do seu quarto.