Capítulo 1048: A Distância Entre a Vida e a Morte (4600)
"Você está bem?" Chen Ge ajudou Du Ming a abrir a tampa da garrafa de água: "Quer beber um pouco de água?"
Du Ming estava debruçado sobre a mesa, com o rosto enterrado no livro, segurando a barriga com as duas mãos.
"Não foi de propósito, não imaginei que fosse acabar assim."
"O que você fez, afinal?" Chen Ge não estava irritado; seus olhos, ao olhar para Du Ming, mostravam mais compaixão.
Du Ming não disse mais nada, apenas balançou levemente a cabeça. Seu estado mental estava péssimo, parecia que, como Chen Ge, estava chegando ao limite.
...
Após a quarta aula, Chen Ge foi até o terraço do prédio escolar quando não havia ninguém. Zhang Ya estava parada ao lado do parapeito.
Ele caminhou silenciosamente até Zhang Ya, e os dois observaram juntos toda a cidade de Liwan.
O prédio escolar era relativamente alto na cidade, e naquele momento fez Chen Ge lembrar-se involuntariamente do Liwan atrás da porta de Xiao Bu.
Naquela época, Zhang Ya aceitou seu pedido, e desde então nunca mais se separaram.
O vento frio, misturado com gotas de chuva, batia no rosto. Zhang Ya colocou o cabelo desgrenhado pelo vento atrás da orelha e, de repente, falou: "O professor provavelmente vai ter que ir embora em breve."
"É por minha causa?" Chen Ge já havia adivinhado o desfecho. Passou a manhã inteira ensaiando essa cena inúmeras vezes em sua mente, mas quando Zhang Ya realmente disse aquilo, todas as palavras que ele havia preparado não saíram.
"Não tem nada a ver com você." Zhang Ya balançou a cabeça: "O problema está em mim. Sempre pensei que já tinha superado o passado, que poderia sorrir e começar uma nova vida, mas isso é apenas autoengano. Agitação, esforço, tudo isso são desculpas para fugir. Na verdade, depois de tantos anos, sinto que ainda estou presa naquele estúdio de dança escuro."
Parado ao lado de Zhang Ya, Chen Ge apertou a grade. Ele conseguia entender Zhang Ya, porque era a única pessoa no mundo que conhecia o passado dela.
Tanto na realidade quanto no mundo atrás da porta, Zhang Ya só contou o segredo para ele.
"Quem errou foram aqueles que espalharam os boatos. Me dê um tempo, vou descobrir tudo e fazer com que todos saibam a verdade." Chen Ge sempre quis fazer isso, mesmo que fosse no mundo atrás da porta, mesmo que tudo fosse apenas sua memória, ele ainda queria ajudar Zhang Ya, dar um novo final ao pesadelo de outrora.
"O que importa não é a verdade, o que importa é você. Tenho medo de que o que aconteceu comigo aconteça novamente com você." Zhang Ya se importava muito com Chen Ge. Quando toda a cidade espalhava vários boatos, ele ainda ficava ao lado dela, confiando incondicionalmente. Esse sentimento era algo que ela nunca tinha experimentado.
Mesmo que a diferença de idade fosse grande, uma coisa era inegável: ela realmente sentia algo diferente naquele homem.
"Eu posso ir embora, posso fugir, mas você não pode." Zhang Ya ficou na frente de Chen Ge, seu rosto muito próximo do dele: "Seu pai ainda está hospitalizado, você tem uma irmã para cuidar. No futuro, todas essas responsabilidades cairão sobre você. Você absolutamente não pode ser afetado por minha causa."
"Eu já sei quem espalhou os boatos, podemos..."
"Chen Ge." Zhang Ya ergueu o braço, seus dedos finos apontando para o céu nublado: "Ir embora não significa que nunca mais nos veremos."
Zhang Ya parecia já ter tomado uma decisão. Ficar à força ainda faria com que as pessoas falassem mal dela pelas costas.
Na verdade, Chen Ge sabia que não foi fácil para Zhang Ya tomar essa decisão; ela devia ter pensado muito.
A mão que segurava a grade estava branca de tanta força. Os olhos de Chen Ge ficaram vermelhos, e ele respirou fundo: "Às vezes, sinto que este mundo é muito ruim. Ele sempre pega aquelas pessoas gentis e as maltrata sem piedade."
"O mundo não é bom nem ruim, mas se houver muitas pessoas gentis, o mundo se tornará gentil." Zhang Ge estendeu a mão para arrumar o cabelo de Chen Ge, desgrenhado pelo vento. A ponta gelada de seus dedos parou no rosto dele: "No futuro, você também deve ser uma pessoa gentil. Volte, você ainda tem que cozinhar para sua família. Não perca muito tempo aqui comigo."
Ela retirou o braço e olhou silenciosamente para o campus que mal tinha conhecido, pensando em algo.
Ao lado de Zhang Ya, Chen Ge olhou para as costas dela, ergueu as mãos e depois as abaixou.
Ele saiu do terraço e foi para o hospital. Depois de levar a comida para o pai, comprou uma refeição na rua para levar para Luo Ruoyu.
Ao voltar para o bairro onde morava, Chen Ge parou na porta de casa. Normalmente, assim que ouvia seus passos, Luo Ruoyu corria para abrir a porta, mas hoje ela não apareceu.
"Não aconteceu nada, né?"
Chen Ge chamou o nome de Luo Ruoyu em voz alta e ouviu um choro vindo de dentro da casa.
"Ruoyu?"
Ao abrir a porta, Chen Ge sentiu um cheiro forte de gás. Ignorando as regras, ele correu para dentro.
O chão da cozinha estava todo molhado, com cacos de garrafa térmica espalhados.
Ele correu para a cozinha e viu Luo Ruoyu encolhida no canto, com as mãos tapando os ouvidos. Na frente dela, havia uma garrafa térmica quebrada.
A roupa dela estava molhada, e o pescoço, os braços e os dedos estavam queimados. Havia lágrimas no rosto.
"Quem mandou você mexer no fogo!" Chen Ge chutou a garrafa térmica quebrada para longe. Nunca tinha ficado tão irritado.
Ao ouvir o grito de Chen Ge, Luo Ruoyu chorou ainda mais. Ela colocou os braços queimados na frente do rosto, as lágrimas escorrendo sem parar.
Chen Ge fechou o gás e, sem pensar muito, pegou Luo Ruoyu no colo e correu para fora.
Ao sair de casa, um novo dia começava, mas Chen Ge não se importou. Ele entrou num táxi com Luo Ruoyu e foi para o hospital.
A área queimada não era grande, concentrada principalmente nos braços. O médico passou pomada em Luo Ruoyu, mas a garota ainda estava em choque, parecendo muito assustada.
"Não é grave, mas a família precisa ter cuidado. Crianças com deficiência intelectual não devem ficar sozinhas em casa, é muito perigoso." O médico saiu, e no quarto ficaram apenas Chen Ge e Luo Ruoyu.
A pomada ardia no início, mas depois dava uma sensação fria.
Luo Ruoyu mantinha os braços ao lado do corpo, sem ousar olhar para Chen Ge. Ela abaixou a cabeça e chorou baixinho.
Ficou um tempo parado no quarto, depois Chen Ge largou a mochila, sentou na beira da cama e abraçou Luo Ruoyu suavemente: "Desculpa, não devia ter gritado com você."
O corpo da garota em seus braços tremia. Ela parecia ter sofrido uma grande injustiça e, apoiada no ombro de Chen Ge, chorou alto.
"Eu sei que você queria ajudar, sei que não quer ser um fardo para os outros, sei que você se esforça muito. Eu entendo tudo." Chen Ge apertou Luo Ruoyu com mais força: "Somos a família mais importante um para o outro."
No mundo atrás da porta, Luo Ruoyu representava a família, também representava os funcionários da casa mal-assombrada que não tinham para onde ir, representava aquelas obsessões que antes se escondiam no fundo do desespero e que Chen Ge "recolheu".
Não importava o que acontecesse, Chen Ge sempre ficava na frente, superando treinos por causa de suas limitações físicas, acompanhando-os à noite, nunca poupando incentivos.
Chen Ge não pedia nada em troca. Ele fazia isso simplesmente porque os considerava família.
Luo Ruoyu chorou até cansar e adormeceu. Mesmo dormindo, sua mão ainda segurava a barra da camisa de Chen Ge.
Chen Ge cobriu Luo Ruoyu com o cobertor do hospital e saiu do quarto silenciosamente. Seus olhos estavam cada vez mais vermelhos, e o álbum de quadrinhos na mochila também sofreu alguma mudança.
"O desastre se aproxima, um sonho tecido com minhas memórias. Agora, vou eu mesmo acabar com ele."
Por ter voltado para casa uma vez, já era um novo dia.
Quando Chen Ge chegou à escola, a primeira aula já estava na metade.
Ele voltou ao seu lugar e descobriu que Du Ming, que nunca se atrasava, não tinha vindo para a aula hoje.
Perto do fim da primeira aula, o professor veio perguntar a Chen Ge se ele sabia por que Du Ming não tinha vindo.
Du Ming, um aluno exemplar, estava faltando aula. Chen Ge não esperava por isso.
No início da segunda aula, depois de apenas uns dez minutos, ouviu-se de repente no corredor a voz um pouco estridente de uma mulher: "Não quer estudar, então o que você quer fazer? O que mais você pode fazer? Volte agora mesmo!"
A mulher parecia estar repreendendo alguém, mas não se ouvia a voz de quem estava sendo repreendido. Era apenas uma culpa unilateral.
A voz se aproximou da sala de aula, e então a porta da frente foi aberta. Uma mulher apareceu na entrada. Ela estava furiosa, com uma expressão assustadora: "Não vem?"
Ela puxou alguém com força para trás, e Du Ming foi arrastado para dentro da sala.
O garoto gordinho estava muito abatido, de cabeça baixa, sem ousar olhar para ninguém.
"Entra logo!" Depois de dizer isso, a mulher fez uma leve reverência para o professor que estava dando aula, e sua voz ficou muito mais suave: "Ele dormiu demais, com medo de ser punido, e ficou com vergonha de vir."
"Tudo bem, tudo bem. Du Ming, volta para o seu lugar." O professor que estava dando aula parecia até um pouco com medo daquela mulher.
"Obrigada, professor." O rosto da mulher mudou instantaneamente, mostrando um sorriso falso, e então ela saiu apressadamente.
Depois que ela foi embora, os alunos da classe começaram a comentar.
"Essa é a mãe do Du Ming? Que severa. Não é à toa que ele tira notas tão boas."
"Achei que ela seria gorda como ele."
"Ela me parece familiar. Lembrei! Não é aquela mãe que veio fazer um escândalo na sala dos professores?"
"Também lembrei. Que fera. Até o diretor Shi ficou sem graça."
"Ser criado por uma mãe assim deve ser assustador. Não é à toa que Du Ming é tão calado e tem um temperamento tão ruim. Deve ser por causa da família."
Os comentários chegaram aos ouvidos de Du Ming. Ele abaixou ainda mais a cabeça, sem ousar olhar para ninguém. Parecia ter medo de que, se levantasse a cabeça, visse todos olhando para ele.
"Não liga para isso. Esses caras só falam mal pelas costas. Se você ficar na frente deles, eles não têm coragem de dizer nada." Diferente dos outros alunos, que cochichavam, a voz de Chen Ge foi alta o suficiente para que todos, incluindo o professor, ouvissem.
Talvez aquelas palavras tenham surtido efeito, ou talvez ninguém esperasse que Chen Ge dissesse aquilo, mas a sala foi ficando mais silenciosa.
A aula voltou ao normal. Chen Ge não perguntou a Du Ming por que ele se atrasou hoje. Depois de falar por ele, parou de prestar atenção nele. Du Ming, por outro lado, olhava para Chen Ge de vez em quando, como se quisesse dizer algo, mas sem coragem de abrir a boca.
O sinal tocou. A terceira aula era de inglês. Du Ming pegou o livro de inglês como de costume, enquanto Chen Ge apenas encostava na parede, distraído.
Chen Ge, que normalmente era o mais animado nas aulas de inglês, hoje estava diferente. Du Ming sentiu um mau presságio.
O sinal tocou, mas depois de cinco minutos, nenhum professor apareceu.
Chen Ge parecia já saber de tudo. Virou a cabeça e olhou pela janela.
"Chen Ge..." Depois de vários dias, Du Ming finalmente falou com Chen Ge de novo: "A professora Zhang está ocupada hoje? Normalmente ela chega mais cedo."
"A Zhang Ya foi demitida da escola." Chen Ge desviou o olhar da janela e olhou para Du Ming: "Ela não vai mais dar aula para a gente."
"Demitida?" Du Ming se levantou de repente. A sala estava em silêncio, todos estudando por conta própria, e todos ouviram a voz de Du Ming.
"A culpa foi toda minha, mas ela não parava de pedir desculpas. Mesmo assim, não foi perdoada." Chen Ge olhou nos olhos de Du Ming: "Eu reclamei com ela, perguntei por que o mundo sempre maltrata as pessoas gentis. Ela me disse que o mundo não é bom nem ruim, mas que, se houver muitas pessoas gentis, o mundo se tornará gentil e tratará bem mais pessoas gentis."
"Por que você não me contou antes? Você já sabia desse resultado, não sabia?" Os olhos de Du Ming estavam inchados, o rosto vermelho.
"Eu fiquei sabendo ontem." Chen Ge fez uma pausa: "Adiantaria te contar?"
"Ela foi embora assim, e você continua sentado aqui? Você não gosta dela? Não deveria fazer alguma coisa por ela?" Du Ming estava agitado, agarrou a gola de Chen Ge: "Por que você não a impediu? Você..."
"Pá!"
Antes que Du Ming terminasse de falar, seu rosto esquerdo foi atingido com força pelo punho de Chen Ge. Antes que pudesse reagir, levou um chute na barriga e caiu no chão.
"Quem é o monitor? Organiza a turma para estudar por conta própria." Chen Ge, com uma mão segurando a mochila e a outra arrastando Du Ming pela gola, levou-o para fora da sala.
"Você sabe quem é aquela professora? Sabe o que ela representa para mim? Sabe pelo que ela já passou?" Chen Ge desferia socos em Du Ming: "Você não sabe de nada."
Ao abrir a porta de ferro do terraço, ChenGe soltou Du Ming no chão.
"Ela se prendeu naquele mundo vermelho-sangue do desespero. Já faz muito tempo que ela não vê a luz. Talvez ela já tenha até se esquecido de quem realmente é."
"Por isso, eu queria deixar uma boa lembrança para ela. Mesmo sabendo que era um sonho, me esforcei muito para torná-lo mais bonito."
Chen Ge segurou Du Ming pelos ombros e o jogou contra a parede: "Mas vocês não me deram nem a chance de tecer um sonho."
"Eu não entendo o que você está dizendo, mas sei que você fala que se importa com ela, mas não fez nada por ela! Você não a ama! Você só a enganou, fazendo ela carregar toda a dor sozinha!" O rosto de Du Ming estava contorcido. Ele ergueu as mãos e bateu em Chen Ge.
"Para você, isso é amor?" Chen Ge não revidou: "Você sabe que o amor precisa de mérito? Um estudante de dezessete anos, por mais que admire, por mais que queira se aproximar, precisa entender uma coisa: sua admiração pode se tornar um problema para ela."
"O amor pode fazer alguém brilhar, mas também pode jogar alguém no abismo."
"Se eu fosse você, manteria uma distância adequada até o dia em que pudesse assumir a responsabilidade, pudesse ser responsável por mim e por ela, para então procurá-la."
A emoção de Du Ming estava cada vez mais intensa. Ele havia perdido completamente o controle, como se o segredo mais profundo de seu coração tivesse sido descoberto: "Você não é eu. Você não entende."
Ele lutou desesperadamente, mas Chen Ge o derrubou no chão com um golpe forte.
"Pá!"
Quando Du Ming caiu, seu celular caiu. A tela estava quebrada, e através das rachaduras dava para ver que o papel de parede era uma foto de Zhang Ya.
A foto parecia ter sido tirada escondida. Zhang Ya estava com um sorriso suave no rosto, conversando com alguém.
"Você também gosta dela?" Chen Ge olhou para a tela quebrada do celular e tirou o martelo de esmagar crânios da mochila.
"Não use a palavra 'também'. Você não merece. Quando todos a acusavam, onde você estava? Quando ela sofria com os boatos, o que você fez por ela?" Du Ming limpou o sangue do rosto e se levantou do chão: "Você não fez nada. Você até recuou por ser aluno e ela professora, sem coragem nem de falar por ela!"
Du Ming gritava histericamente. Parecia que ele não estava repreendendo Chen Ge, mas sim a si mesmo no passado.
"Talvez para você, a distância entre professor e aluno já seja grande o suficiente para te desesperar. Mas você já pensou que existe uma distância neste mundo chamada vida e morte?" Quando Chen Ge viu o celular de Du Ming, todas as peças se encaixaram: "Você pode gostar da sua professora, se esforçar ao máximo por três, cinco anos, até poder dar o próximo passo e voltar para procurá-la. Mas a distância entre a vida e a morte pode exigir uma vida inteira de espera."
Ele pegou o celular do chão e olhou para Zhang Ya no papel de parede: "O amor, desde o momento do encontro, nem a morte o interrompe. Só termina quando uma das partes decide ir embora."