Capítulo 1046: O desastre como um par de mãos invisíveis (4000)
Duas almas solitárias e gentis se curam mutuamente, sentadas juntas naquela noite de tempestade. A chuva batia nas janelas como tambores desordenados, e dentro e fora da cabana pareciam dois mundos diferentes. A tempestade e o vento forte desabafavam sua insatisfação e raiva, enquanto dentro da casa reinava o silêncio, o relógio tilintava e o chá preto na mesa ainda exalava vapor.
"Originalmente, eu deveria te consolar, mas quando começo a falar sobre essas coisas, perco um pouco o controle. Toda vez penso que já me acostumei, mas na verdade é só autoengano."
Zhang Ya, sendo adulta, logo ajustou suas emoções. Chen Ge também retirou a mão imediatamente; ele sabia muito bem como controlar os limites, como manter a distância certa para que ambos se sentissem confortáveis juntos, sem ser distante demais nem íntimo demais.
"Esta chuva provavelmente não vai parar esta noite." Zhang Ya se levantou para verificar as janelas e depois fechou as cortinas. Sentou-se no outro lado do sofá: "Já falei sobre o assunto do professor. A partir de hoje, não vou mais fugir. Você também precisa dar um passo à frente."
Enquanto falava, pegou o celular: "Ligue para seu pai. Ele deve estar preocupado com você. Além disso, quero conversar bem com ele. O professor não vai deixar que o que aconteceu com ele se repita com seus alunos. Se houver algum problema, o professor vai fazer o possível para te ajudar."
Na época da escola, foi difamada, excluída e alvo de fofocas. Zhang Ya passou por tudo isso e conhecia bem a dor, por isso cuidava muito de seus alunos.
Todas as cicatrizes marcadas em seu corpo tornaram Zhang Ya gentil e forte.
Ela não se tornou dançarina, mas sim professora.
Talvez em seu coração ela já tenha pensado que, se naquele dia o professor não tivesse mentido, mas escolhido se manifestar para esclarecer os fatos, tudo poderia ter sido diferente.
Ela não podia mudar o passado, então escolheu outro caminho. Pelo menos em sua turma, jamais permitiria que algo semelhante acontecesse novamente.
Tudo estava caminhando para melhor, mas no coração de Chen Ge uma inquietação começava a surgir lentamente. Para fazer alguém experimentar o desespero, primeiro dê a ele todas as coisas boas e depois as destrua uma por uma, sem deixar nenhuma.
"Você ainda não confia no professor?"
Sob o incentivo de Zhang Ya, Chen Ge ligou para o pai. O telefone tocou apenas duas vezes antes de ser atendido.
"Estou na casa da minha professora..."
Uma conversa simples e afetuosa, sem nada de errado. A relação entre pai e filho era harmoniosa, com respeito e compreensão mútuos, sem aquela imposição de "sou seu pai, você tem que me obedecer".
Depois que Chen Ge falou, Zhang Ya também conversou um pouco com o pai de Chen Ge. Discutiram longamente sobre a educação do menino.
Por volta das onze da noite, Chen Ge se deitou no sofá com o cobertor de Zhang Ya, enterrando o rosto nele: "Que macio."
"Cuidado à noite, se cubra bem para não pegar um resfriado." Zhang Ya estava na porta do quarto. Sua casa era pequena, com apenas um quarto.
"Você é que deve tomar cuidado, lembre-se de trancar a porta do quarto." Chen Ge acenou com a mão.
"Não preciso que me lembre. Boa noite."
"Boa noite, bons sonhos."
Depois que a porta do quarto se fechou, Chen Ge ficou sozinho no sofá, a mente vazia: "Faz tanto tempo que não como tão feliz, e também faz tempo que não descanso confortavelmente. Mal posso acreditar que isso é no mundo atrás da porta."
Seu corpo estava em um estado de completo relaxamento. Chen Ge até suspeitava que, se fechasse os olhos, cairia no sono imediatamente: "Não posso descuidar. Feto Sombrio e Yu Jian devem estar sempre procurando uma oportunidade."
Apagou a luz e, à meia-noite, foi ao banheiro trocar de roupa. Embora ainda não estivesse completamente seca, já não era tão desconfortável de vestir.
"Está na hora de ir. Na casa de Zhang Ya não há pistas sobre Yu Jian. Ficar mais tempo é só perda de tempo." A razão dizia a Chen Ge que ele deveria sair agora e usar a noite para vasculhar a cidade de Liwan, mas toda vez que esse pensamento surgia em sua mente, seu corpo resistia ferozmente, como se houvesse outra voz em seu cérebro o persuadindo a ficar.
"Desta vez vim porque queria ver se podia encontrar pistas na casa de Zhang Ya. Provavelmente não terei outra oportunidade assim. Ou seja, esta pode ser minha última visita, em todos os sentidos, a última." Ao chegar à porta, Chen Ge parou. Olhou para trás, para a porta do quarto de Zhang Ya: "Zhang Ya aos dezoito anos se tornou uma Vermelha, Zhang Ya aos vinte e cinco se tornou uma professora dedicada. A combinação das duas é a verdadeira ela."
Para ser sincero, quando Chen Ge recebeu a carta de amor de Zhang Ya pela primeira vez, só sentiu medo. A morte parecia uma nuvem negra pairando sobre sua cabeça.
A primeira vez que mudou de opinião sobre Zhang Ya foi durante a transmissão ao vivo da caçada noturna, quando ele e o criminoso se encontraram na cabana do guarda-florestal na montanha. O aviso de Zhang Ya salvou sua vida.
Mais tarde, ele reuniu coragem para ir ao Colégio Privado da Cidade Oeste. Quando viu o que Zhang Ya havia sofrido no estúdio de dança, embora ainda tivesse medo dela, o medo agora vinha acompanhado de um toque de compaixão.
Foi exatamente por essa compaixão que ele decidiu ajudar Zhang Ya a investigar o assassino daquela época.
A cena do encontro parecia ter acontecido ontem. O intervalo de tempo não era longo, mas as experiências no meio não podiam ser explicadas em poucas palavras.
"Antes eu só via Zhang Ya como uma Vermelha. Desta vez, atrás da porta, finalmente a conheci de verdade." Chen Ge foi até a porta do quarto, colocou a mão levemente sobre a madeira. Não sabia se Zhang Ya dentro do quarto já havia dormido. Hesitou por muito tempo, e então murmurou baixinho: "Conhecer você foi minha sorte."
Pegou a mochila, levou o guarda-chuva preto que estava debaixo da mesa de centro e deixou o guarda-chuva vermelho para trás.
Abriu a porta sorrateiramente. Chen Ge não escolheu passar a noite na casa de Zhang Ya. Saiu sob a chuva.
Seguindo o plano original, Chen Ge começou a vasculhar a partir da zona leste de Liwan.
A cidade durante a tempestade era completamente diferente do normal. Sem luzes nas ruas, sem claridade, nenhum carro à vista.
"Parece que, depois que anoitece, sou a única pessoa em toda a cidade."
Chen Ge já estava acostumado com a escuridão. Examinou prédio por prédio, sem encontrar nada, sem ver vivalma.
"Sinto que este lugar está ficando cada vez mais opressivo, mas não consigo identificar o problema. Tudo e todos parecem não ter mudado visivelmente."
A tempestade parou ao amanhecer. Chen Ge voltou cedo para a escola. Pulou o muro, entrou pela janela da sala de aula e voltou ao seu lugar.
Os alunos foram chegando um a um. A primeira aula do dia era inglês. Antes do professor chegar, Chen Ge pediu emprestado o dever de casa a Du Ming e resolveu tudo em dez minutos.
"Valeu. Um dia te levo para visitar a casa mal-assombrada." Chen Ge devolveu o dever a Du Ming. Percebeu, surpreso, que Du Ming, normalmente tão tagarela, não disse uma palavra, parecendo de mau humor: "Você está bem?"
Du Ming continuou calado, apenas de cabeça baixa, como se evitasse olhar para Chen Ge.
...
Terminadas as aulas da manhã, Chen Ge se espreguiçou. Ia trocar algumas palavras com Du Ming, mas o gordinho pegou a mochila e saiu sozinho.
"Algo está errado. Preciso descobrir." Chen Ge andou rápido e, ao sair da sala, esbarrou em dois outros alunos do sexo masculino.
"Desculpe." Chen Ge não queria problemas, então se desculpou proativamente.
"Que azar." Um dos alunos bateu na própria roupa. Parecia ter aversão a Chen Ge e murmurou alguns xingamentos baixinho.
Sua voz era baixa, mas alta o suficiente para Chen Ge ouvir. Dizia mais ou menos que Chen Ge tinha mãe, mas não era criado por ela, atacando-o por vir de uma família monoparental.
"Colega, xingar não é certo. Daqui a um tempo volto para te explicar por que xingar é errado." Chen Ge sorria. Gravou a aparência e a voz dos dois alunos e se afastou despreocupadamente.
Isso não quer dizer que Chen Ge tivesse um coração magnânimo a ponto de suportar insultos. Ele só achava que não valia a pena se importar com alguém que estava prestes a morrer.
Os dois garotos acharam que Chen Ge era fácil de intimidar e sorriram com desdém.
Chen Ge, porém, percebeu neles alguns maus presságios. A calamidade já havia chegado. Aquele mundo atrás da porta estava começando a se voltar contra ele.
"Feto Sombrio e Yu Jian estão ficando impacientes?" Chen Ge no final não encontrou Du Ming. Andou um pouco pelo prédio da escola, pegou a mochila e subiu para o terraço.
Empurrou a porta de ferro. Zhang Ya estava sentada sozinha no mesmo lugar de antes, com uma marmita ao lado, como se esperasse alguém.
"Professor Zhang?"
"Não esperava que você realmente viesse." Zhang Ya acenou. "Que horas você saiu esta manhã?"
"Assim que a chuva parou. Era a primeira vez que dormia na casa de alguém, fiquei meio sem graça." Chen Ge sentou ao lado de Zhang Ya. Sem saber por que, seu coração começou a acelerar.
"Você já comeu?"
"Ainda não."
"Não pode ficar sem almoçar." Zhang Ya abriu as marmitas empilhadas. "Hoje, por coincidência, peguei um prato a mais."
...
O intervalo do almoço terminou. Chen Ge voltou para a sala de aula, Zhang Ya para a sala dos professores.
A segunda aula da tarde era novamente de Zhang Ya. Chen Ge estava feliz, mas, para sua surpresa, assim que a aula começou, a porta da sala foi aberta.
O Diretor Shi estava do lado de fora, acenando para Zhang Ya, como se tivesse algo importante a dizer.
Antes de sair, Zhang Ya ainda sorria. Quando voltou, suas sobrancelhas estavam franzidas, mas logo se descontraíram. Ela não deixava que suas emoções negativas afetassem os alunos.
Esforçou-se para dar a aula e depois saiu apressada da sala.
"Aconteceu alguma coisa?"
Chen Ge pegou a mochila e a seguiu. No corredor, ouviu dois alunos cochichando.
"Ouvi dizer que a nova professora foi repreendida pelo diretor. Parece que é por estar muito próxima dos alunos."
"Ser próxima dos alunos não é problema, né?"
"Quem sabe? Ela já tinha má reputação antes, dizem que não era muito séria. Por isso veio dar aula de inglês na nossa cidade."
"Sério? Mentira? Não fala bobagem."
"Só estou repetindo o que ouvi, mas pode ser verdade."
"Pois é, uma mulher tão bonita, por que viria ser professora numa cidade pequena?"
"Exato. Não se conhece alguém só pela aparência."
Chen Ge não sabia onde começou o boato. Mesmo que fizesse aqueles alunos calarem a boca, mais fofocas surgiriam.
"Feto Sombrio e Yu Jian devem estar esperando eu agir."
Depois que todos foram embora, Chen Ge ficou perto da sala dos professores, olhando pela janela a chuva que aumentava.
Zhang Ya foi a última a sair da sala. Viu Chen Ge esperando não muito longe, e ele a viu no mesmo instante.
Chen Ge não sabia se ir até ela naquele momento traria problemas. Depois de confirmar que não havia mais ninguém no andar, ele foi.
"Por que você ainda não foi para casa?" Zhang Ya sorriu como sempre. Pela expressão, não se via nenhuma tristeza. Era como se nada tivesse acontecido.
"Não se sacrifique por minha causa. Se precisar de algo, pode me dizer." Chen Ge segurava o guarda-chuva preto que trouxera da casa de Zhang Ya, sem devolver o vermelho. "Ao meu lado, a única pessoa com quem posso conversar assim é você."
"Eu sei." Zhang Ya se aproximou de Chen Ge e repetiu baixinho o que ele acabara de dizer: "Ao meu lado, a única pessoa com quem posso conversar assim é você."
Abriu o guarda-chuva vermelho, ainda com um sorriso suave no rosto: "Na verdade, preciso que você faça muitas coisas. Quero que você estude bem, não brigue com sua família, seja feliz, se dê bem com os colegas..."
"Vou me esforçar para fazer tudo isso. Atenderei a todos os seus pedidos, só espero que você me prometa uma coisa." Chen Ge olhou seriamente para Zhang Ya.
"O quê?"
"Se um dia você não aguentar a pressão e quiser ir embora, antes de partir, espero que possamos nos ver mais uma vez."
"Como eu poderia ir embora?" Zhang Ya balançou a cabeça. "Você está pensando demais."
"Não importa se estou pensando demais. Você aceita ou não?" Chen Ge, como uma criança, repetia a mesma frase.
"Aceito. Se eu planejar partir, com certeza avisarei você." Zhang Ya respondeu com um tom resignado.
"Então está bem." Chen Ge de repente ficou feliz.
"Você é mesmo uma criança." O sorriso de Zhang Ya agora era mais genuíno, um verdadeiro sorriso. "Você tem guarda-chuva hoje. Vá para casa. Quando chegar, me mande uma mensagem para dizer que está seguro. Se ainda tiver dificuldade para se comunicar com sua família, pode me ligar. Eu ajudo a conversar com eles."
"Pode deixar." Chen Ge, conforme combinado, não saiu por aí. Esperou Zhang Ya ir embora antes de pular o muro da escola, para evitar que o porteiro fizesse fofoca.
Chen Ge manteve distância propositalmente e voltou cedo para casa.
"Irmão, irmão..." Luo Ruoyu, ao ver Chen Ge, correu feliz para abrir a porta, mas ele não entrou.
"Ruoyu, você está sozinho em casa?"
"Sim, papai, não, voltou, do trabalho." Luo Ruoyu ficou confusa por que Chen Ge não entrava. Seus olhos grandes e brilhantes fitavam Chen Ge.
"Então vou esperar ele aqui." A porta não estava fechada, e Luo Ruoyu também não voltou. Chen Ge sentou no corredor e começou a contar histórias para ela.
Como único membro da Associação de Contos Estranhos, Chen Ge tinha um vasto repertório de histórias. Ele omitiu as partes sombrias e contou apenas o lado bom da natureza humana.
Não se sabe quanto tempo passou até o pai de Chen Ge voltar. Ele parecia exausto, e linhas pretas visíveis apareciam no dorso de sua mão que segurava as compras.