Capítulo 1016: Você está com raiva de mim?
O choro de crianças vinha de todas as direções, impossível determinar a origem do som.
"Peng, você não acha esse choro meio familiar?" Chen Ge, que possuía o Ouvido Fantasma, prendeu a respiração e ouviu em silêncio. Depois de um tempo, fez uma descoberta impressionante: entre os choros das crianças, um deles era muito parecido com o de Wu Sheng.
Aquela criança não estava escondida na cabana?
Chen Ge não conseguia entender. Ele olhou para Wu Jinpeng, um homem alto cujo corpo tremia sem parar, já levado ao limite pelos monstros.
Tanto física quanto psicologicamente, ele estava prestes a desmoronar.
O peito subia e descia, ofegante, enquanto Wu Jinpeng se encostava na parede do hospital, os olhos injetados de sangue, vermelhos e assustadores.
"Você está bem?"
Enquanto fugiam juntos, Chen Ge não tinha notado isso antes. Ele inconscientemente projetava sua própria condição física em Wu Jinpeng, mas, na verdade, nem todo mundo era como ele, que tinha um corpo comparável ao de um atleta.
"Vamos, para a porta dos fundos." Sem ousar ficar mais tempo, Wu Jinpeng agia de forma estranha desde que entrou no hospital. Da última vez que esteve ali, algo parecia ter acontecido, deixando um grande trauma psicológico. Se não estivesse encurralado sem saída, ele provavelmente não escolheria entrar no hospital novamente.
O choro das crianças aumentava, e aquele que lembrava Wu Sheng foi gradualmente abafado pela onda sonora. Chen Ge ficou alerta e seguiu Wu Jinpeng em silêncio.
O hospital do bairro antigo era pequeno, mas tinha todos os tipos de departamentos. À primeira vista, parecia normal, um hospital comum de madrugada, sem nada assustador.
Atravessando o corredor vazio, Wu Jinpeng levou Chen Ge até a interseção da escada. Nesse momento, o choro das crianças já estava ensurdecedor.
"Viu aquela janela na curva da escada? Pulando dali, chegamos na Rua Oeste e podemos nos livrar temporariamente desses monstros." Wu Jinpeng disse isso, mas não se moveu. Seus olhos estavam cheios de medo e pavor, o que fez Chen Ge perceber que as coisas não eram tão simples.
"Irmão, presta atenção: ao subir a escada, não importa o que ouça ou veja, não pare. Corre de uma vez, entendeu?" Wu Jinpeng alertou Chen Ge: "Se achar a mochila muito pesada, posso segurá-la para você. Depois de subir a escada, tem que correr o mais rápido possível até a janela!"
"Entendi. Sempre corri rápido desde pequeno."
Wu Jinpeng e Chen Ge ficaram lado a lado na entrada da escada. Preparados, trocaram um olhar e partiram juntos, correndo em direção à porta.
Passos ecoaram no corredor. No primeiro passo, Chen Ge não sentiu nada, mas conforme continuava correndo, o choro das crianças invadia seus ouvidos como uma onda sonora. Seu cérebro foi tomado pelo choro, a ponto de sentir tontura.
"Não para!" Wu Jinpeng já tinha passado por isso antes. Mesmo no momento crítico, ele ainda se preocupava com Chen Ge e gritou em alerta.
O choro das crianças ficava mais alto, e os degraus da escada pareciam mais macios, como se não estivessem pisando em cimento.
Chen Ge olhou para baixo e viu mãozinhas saindo do chão, agarrando suas pernas. O corredor, antes vazio, estava agora cheio de bebês sem rosto.
Mesmo sendo experiente, Chen Ge hesitou por um instante. Instintivamente, desviou dos bebês e pisou nos espaços vazios dos degraus.
Um som de porta se abrindo veio do segundo andar do hospital. Quando Chen Ge olhou para cima, uma onda de sangue vermelho jorrou do corredor do segundo andar, avançando violentamente contra ele e Wu Jinpeng.
"Pula pela janela! Não para!" Chen Ge foi o primeiro a chegar à janela. Quando a abriu, a onda de sangue já estava sobre eles. Naquele momento, ele podia pular, mas se fizesse isso, Wu Jinpeng seria levado pela onda.
"Segura minha mão!" Quando Chen Ge disse isso, a onda de sangue já os havia engolido, submergindo ele e Wu Jinpeng.
O cheiro de sangue invadiu suas narinas. Não conseguiam respirar, e uma dor intensa percorria seus corpos.
Chen Ge abriu os olhos com dificuldade. No último instante, Wu Jinpeng havia agarrado a mochila de Chen Ge.
O sangue parecia infinito, jorrando do segundo andar. Entre as ondas, além do choro das crianças, um segundo som começou a surgir, o murmúrio de uma mulher, vindo de longe e se aproximando.
"Corre! Não se importa comigo!" Wu Jinpeng mal conseguia ficar de pé com a força da corrente sanguínea. Ele sabia que suas chances eram pequenas.
"Ainda há esperança! Pensa no seu filho!"
Quando Chen Ge virou para falar, uma mulher com um grampo de cabelo vermelho apareceu no final do corredor do segundo andar. Vestia uma roupa de grávida desajeitada, e seu rosto, sem traços, estava virado para Chen Ge e Wu Jinpeng.
O murmúrio da mulher ficou claro, como uma maldição impossível de evitar, ou como uma cobra venenosa que se enfiava nas profundezas da mente.
"Jinpeng, você ainda se lembra de mim?"
"Fui uma mãe horrível?"
"Você está com raiva de mim?"
"A criança nasceu e nem chorava, mas isso é minha culpa?"
"Se ele fosse uma criança normal, eu nunca faria isso. Mas você ouviu o médico: a condição dele é muito especial. Não temos condições de criá-lo. Crescer conosco só o tornaria um monstro odiado por todos."
"Se ele fosse uma criança normal, eu realmente criaria ele com você até a idade adulta."
"Mas ele não é normal. Não aguento mais. Minha vida está só começando, não quero ficar presa a ele assim."
"Wu Jinpeng, você não quer vir comigo? Vamos fugir juntos?"
"Não me ache egoísta. Passamos por tanta dificuldade juntos, não quero mais isso."
"Mesmo que ele cresça, você acha que ele será feliz de verdade?"
"Quer que ele se torne como seu irmão?"
"Saiba que um dia você também vai envelhecer. Quem vai cuidar do seu irmão? Quem vai cuidar dessa criança?"
"Em vez de partir juntos um dia, melhor viver por si mesmo uma vez."
"O você que eu conheço é aquele pássaro livre, sem amarras. Vem comigo."
O rosto vazio da mulher mudava lentamente. Ela pisava no sangue e, sem que se percebesse, apareceu na frente de Wu Jinpeng.
Mãos pálidas emergiram do sangue, erguendo-se lentamente para segurar o rosto de Wu Jinpeng.
"Felicidade, alegria, desejo, liberdade — tudo o que você busca está aqui. Por que você não estende a mão?"
A mulher se inclinou suavemente contra Wu Jinpeng, fazendo a cabeça dele encostar nela: "Nunca te pedi nada. Esta é a primeira vez. Vamos juntos."
Wu Jinpenc olhou para o rosto da mulher, aquele rosto sem traços cada vez mais borrado. Seus olhos injetados de sangue perdiam o brilho, e seu corpo cansado parou de lutar, como se visse nela um porto seguro.
Os dedos que seguravam a mochila de Chen Ge foram se soltando lentamente, e o corpo de Wu Jinpeng foi sendo submerso pelo sangue. Quando Chen Ge já achava que ele desistiria, aquele pai que, aos olhos de Wu Sheng, tinha quase dois metros de altura, de repente estendeu as duas mãos e agarrou os braços da mulher sem rosto.
"Leva o Wu Sheng e corre!"