Em algum lugar do mercado da capital de Jagon…
Ali ainda estava cuidadosamente adicionando comida ao seu animal de estimação, quando virou a cabeça e viu uma garota de corpo esbelto, com um véu, parada na porta.
— Patrão.
— É a irmã Illya! O que a traz aqui? — Ali não esperava que ela viesse tão cedo hoje.
Desde que abriu a loja, Ali sempre se lembrava de Sean, um dos poucos clientes verdadeiramente ricos que encontrou, e, claro, tinha ainda mais impressão de Illya, a empregada que o acompanhava.
Linda, com um olhar que roubava a alma, ela vinha quase regularmente comprar comida fresca para falcões-da-areia.
Criar animais de estimação também tinha seus requintes. Se fosse só comprar grãos velhos e insetos secos, dava para vir uma vez por mês.
Mas essa cliente vinha a cada poucos dias comprar formigas-da-areia e vermes frescos — coisas que os camponeses cavavam no deserto todos os dias, muito caras.
Isso mostrava que o patrão dela era realmente rico.
— Não posso vir?
— Claro que pode… Pode vir, até gostaria que viesse todos os dias, irmã Illya. Se você vier, meu dia inteiro fica mais alegre. — Ali disse, sorrindo.
— Deixe de gracinhas. Tenho um pedido para você. Topa?
— Topo! Se for para você, até numa tempestade de areia preta eu vou. — Ali começou a fazer juras exageradas.
— Que bom! Fico tão emocionada!
Por dentro, achava graça. Illya já tinha ouvido juras assim inúmeras vezes, e muito mais exageradas. Não ia se derreter por umas palavras bajuladoras.
— Na verdade, não é difícil. Só preciso que você me ajude a entregar cartas de vez em quando. Leve para uma fábrica nova no leste da cidade, entregue a um tal de Claude.
— Vão abrir uma fábrica na cidade? — Ali perguntou de repente.
— Mandei você entregar a carta, por que tantas perguntas? Não é você quem decide se abre ou não. — Illya franziu a testa, insatisfeita.
— Tá bom, tá bom, como você mandar.
Ali não ousava contestar Illya, afinal, era apaixonado pela beleza dela.
— Mas só posso ir depois de fechar a loja. Quer que entregue hoje?
Illya tirou do peito uma carta lacrada e entregou a ele.
— Hum, você decide quando ir, mas tem que ser rápido… E se ele responder, me entregue a resposta o mais rápido possível. — Enquanto entregava a carta, também deu algumas moedas de prata.
— Fique com isso, não quero que você perca seu tempo.
— Não, como posso aceitar seu dinheiro! — Ali recusou firmemente.
— Pegue! Sem enrolação… Não sou eu que estou dando, é meu patrão. A carta também foi ele quem mandou entregar.
Ah.
Ali de repente se aproximou dela, numa posição bastante íntima.
— Irmã Illya, aquele jovem que veio com você da outra vez é seu patrão, né? Quem é ele? Parece muito rico. Conheço alguns jovens ricos na capital que gostam de criar animais, mas nunca ouvi falar dele antes.
Ela revirou os olhos…
— Entregue a carta e pronto, para que tantas perguntas? Melhor não bisbilhotar, é para o seu bem.
— Então a irmã Illya ainda se importa comigo? — Sempre que via uma brecha, aproveitava para brincar.
— Depende do seu desempenho.
Pegou a comida de pássaro num saco e deu uma olhada.
Um monte de insetos num pote. Essas coisas eram a comida diária do falcão-da-areia que Sean criava.
Era como um pássaro nobre, alimentado com ingredientes de primeira todos os dias…
— Por que esses parecem maiores hoje? Não serão criados por vocês mesmos? — Disse Illya.
Diferente das garotas nobres, Illya não tinha medo desses insetos ou formigas, e até pegava alguns para examinar. Isso era algo que Ali admirava nela, sentia que combinavam.
— Esses vermes não podem ser criados. Eles se alimentam de areia podre no fundo do deserto. Mesmo cavando à mão, é preciso ir muito fundo para encontrá-los. Por isso são caros.
— … Mas ouvi dos trabalhadores que andam com sorte ultimamente. Esses vermes estão subindo devagar do fundo, e dá para pegar muitos todos os dias. Por isso o preço caiu um pouco. — Disse Ali.
De repente, lembrou de algo.
— Ah, irmã Illya, se eu pegar a resposta, como faço para te encontrar? Não sei onde você mora.
— Não precisa me procurar. No dia seguinte ao da entrega, venho te ver. Aí você me entrega. — Respondeu Illya.
— E se ele não responder no dia seguinte…
— Então venho no terceiro dia.
— Que trabalhoso.
— O que você quer dizer? — Perguntou Illya diretamente.
Ali pegou uma gaiola nos fundos da loja, com dois gatinhos malhados.
— Esses dois gatos se encontram pelo cheiro, e são muito rápidos. Ninguém consegue pegá-los… Fique com um, eu fico com o outro. Quando eu receber a carta, solto o gato, ele vai te encontrar, e aí você vem com ele.
Illya pensou um pouco. Parecia viável, desde que não fosse para os gatos entregarem as cartas.
E…
Esses gatos malhados eram realmente muito fofos.
— Tá bom, mas não tenho dinheiro para criar mais um bicho.
— Sem problema. A comida eu dou para você, e ainda ensino como treiná-los. — Ali pensou, finalmente tinha um assunto para puxar conversa.
………………
Voltou ao palácio com o gato malhado…
Sean ainda trabalhava no escritório, e Illya deixou o animal no pátio ao lado.
— O que você trouxe aí?
Ela se assustou, virou-se e viu Sean na janela do escritório, com uma xícara de chá na mão, observando.
— Vossa Alteza está descansando.
— Hum, o que você está carregando?
— Um gato. Achei bonito e trouxe. — Illya ergueu a gaiola.
O palácio já era entediante, e não dava para sair por aí como em Oro. Sean, que gostava de criar animais, nem ligou.
Acenou com a cabeça, disse algumas palavras e se preparou para sair.
— Vossa Alteza, hoje encontrei a pessoa para entregar as cartas. Vamos deixar ele tentar primeiro. E também trouxe a comida do "Idiota da Areia" de hoje.
"Idiota da Areia" era o nome que Sean tinha dado ao falcão.
— Não me diga que é a mesma pessoa, o rapaz que vende animais? — Olhando as emoções no topo da cabeça dela, Sean nem precisava adivinhar.
— … Deixa ele tentar primeiro.
— E os vermes estão mais baratos ultimamente. Dizem que tem muitos, por isso o preço caiu. — Illya desviou do assunto.
— Hum, vou ao aposento do meu tio. À noite, quando eu voltar, a gente conversa…
Sean deu a ordem.
Pouco antes, um guarda veio avisar que ele deveria ir até lá. Provavelmente era para discutir opiniões sobre a política com o país de Dansu.