Shawn não ficou muito tempo na Cidade Antiga de Tacoma; praticamente no terceiro dia, depois de inspecionar o acampamento militar na fronteira, já se preparava para voltar.
Na cidade de Tacoma, ele só mandou fazer uma varredura no primeiro dia, especialmente nos lugares onde os comerciantes adakianos não tinham ido. Na verdade, Shawn percebia que aqueles caras não estavam sendo sinceros. Embora a Cidade Antiga de Tacoma fosse grande, já fazia quase dois meses desde o último incidente. Desde que a rota comercial foi restabelecida, muitos comerciantes adakianos paravam por lá; os lugares que podiam ser revirados, eles já deviam ter revirado.
Se realmente existisse aquele livro, talvez já tivesse sido levado por alguém.
Mas, pensando bem, será que aquele livro, considerado por Alfons como uma escritura suprema, estava exatamente nesta cidade?
O mundo é tão grande que é difícil encontrar coincidências assim. Shawn pensou que devia ter algo a ver com o homem-polvo Wiseman e aqueles Abissais de antigamente. Talvez a forma horrível que ele acabou assumindo tenha sido causada por alguma coisa.
Na época, ele não era o líder do grupo; Shawn até escondia sua identidade. Embora Freylia, de vez em quando, conversasse com ele em particular sobre alguns assuntos, os dois raramente se encontravam, só se comunicando às escondidas pelos túneis do acampamento militar.
E depois, quando ela o levou de volta, ainda ficou uma grande parte dos Cavaleiros da Pena Negra e do Círculo de Magos em Tacoma. Talvez ela também não soubesse de tudo.
O Necronomicon talvez fosse difícil de encontrar, mas a estátua de material desconhecido chamou a atenção de Shawn.
Quando perguntou ao comerciante adakiano, ele não soube descrever como era, porque nunca a tinha visto.
Só ouviu dizer, de quem viu, que era muito atraente, de aparência bizarra, mas com um charme único.
Quando Shawn perguntou qual era exatamente esse charme único, a resposta do comerciante deixou ele e Joseph chocados.
O comerciante respondeu imitando o tom de outras pessoas.
"Se pudesse, eu a teria para mim."
O importante não era a frase, mas a expressão no rosto do homem. Não se sabia se ele estava imitando aquelas pessoas ou se fazia aquilo de propósito. Ao dizer isso, a expressão de ferocidade e desejo era tão intensa que até Joseph, um jovem cheio de vigor, sentiu um arrepio na espinha.
Depois daquele dia, Joseph repetiu várias vezes para Shawn que a expressão daquele comerciante sempre aparecia em sua mente, sem conseguir se livrar dela, e sentia como se estivesse sendo sugado por aquilo.
E naquela mesma noite, ele acordou assustado com um pesadelo.
A estátua.
E ainda muito atraente.
Shawn tentava imaginar na cabeça algo que pudesse corresponder. Talvez houvesse algum tipo de magia ali, fazendo com que quem a visse ficasse quase louco para possuí-la.
Mas, já que aquilo tinha sido levado para fora do país, seria muito difícil para ele recuperar, sem chance nem de conversar.
Seja nas relações cotidianas ou em nível estatal, a região de Zambutar e a região de Adak só mantinham relações diplomáticas comuns. Nos bastidores, os dois lados não perdiam a chance de se criticar. Se ele quisesse pedir o objeto ou apenas saber mais sobre a situação, provavelmente seria barrado pelos administradores da cidade vizinha.
Talvez devesse perguntar a Freylia, já que ela esteve lá por um tempo; quem sabe ela poderia dar mais informações.
Como seu território ficava muito perto das duas fronteiras, qualquer ameaça potencial precisava ser prevenida.
— Senhor.
Joseph, que vinha atrás, se aproximou para falar.
— Sua cara não está boa. Ainda não dormiu bem ontem à noite? — perguntou Shawn, estranhando.
Não era possível.
Afinal, Joseph era um sargento. Não importa o que tenha feito antes, quem sobreviveu ao incidente de Tacoma já viu um ou dois mortos. Será que um sorriso bizarro e feroz o assustou a ponto de ficar assim até hoje, ainda atordoado?
Se não fosse por Shawn não sentir nada de anormal e pelo comerciante daquele dia ser apenas um humano comum, ele até pensaria que o homem tinha lançado uma magia que assustou aquele veterano de guerra.
— Um pouco, mas não tem problema. Deve passar hoje. — Disse com dificuldade, e a cara ficou ainda pior.
— Estou curioso, Joseph. Você foi promovido a sargento normalmente, já deve ter visto muitas coisas que pessoas comuns não veem. Lembra daquele dia, todo imponente, assustando o outro, mas o comerciante só disse uma frase e te deixou assim. — Vendo que não havia ninguém por perto, Shawn brincou com o sargento.
Normalmente, os dois raramente conversavam, mas ele era, afinal, um dos principais homens de Shawn, e ele queria conhecê-lo melhor.
— Ei...
Joseph também ficou meio sem graça, mostrando os dentes. Com aquela barba cheia, parecia bem másculo, mas tinha um medo inesperado.
— Na verdade, quando vi a expressão daquele homem, lembrei de algumas coisas.
— Ah, o quê?
Ele deu um sorriso sem graça, mas Shawn percebeu que ele queria falar mais.
— Ainda temos um longo caminho pela frente. Que tal conversarmos sobre sua história?
— Na verdade, já vi aquela expressão uma vez, quando era muito pequeno. Era de um amigo meu, na última vez que o vi, ele estava com aquela cara.
— A última vez? O que aconteceu com ele depois? — perguntou Shawn, curioso.
— Morreu.
— Morto por uma lenda de terror.
Isso deixou Shawn ainda mais curioso. O que significava morrer por uma lenda?
— Como foi?
— Como em todo lugar, também circulam histórias estranhas e macabras. Na minha infância, havia uma lenda assim, passada de geração em geração. Eu vivia numa vila remota na região de Ouro, que antes se chamava Tacoma, mas a história era de uma época ainda mais antiga, quando Ouro nem existia, ou era só uma vila pequena.
— Uma mulher chamada Marian, que vivia sempre na floresta.
A história de Joseph era parecida com aquelas que Shawn ouvia dos artistas nas estalagens.
Uma velha solitária que morava numa floresta escura, de comportamento estranho e assustador. As pessoas a viam em vários lugares da floresta, e as explicações sobre sua origem eram muitas, mas a mais comum era que ela era uma encarnação do mal, um demônio.
— Quando éramos crianças, o que mais temíamos era ser olhados por Marian, porque aquele olhar parecia te puxar para um abismo. — Ao falar disso, Joseph ainda mostrava um medo residual.
— Mas você está bem agora.
— Sim, mas um dos meus amigos não teve tanta sorte. Depois de ser olhado por Marian, ele desapareceu. Naquela noite, ele correu para a floresta e sumiu.
— Foi aquele que você mencionou? — Shawn insistiu.
— Sim. Mas o encontramos oito dias depois. Você não imagina como uma criança conseguiu sobreviver oito dias naquela mata fechada. Até hoje, quando lembro, ainda sinto medo. — Joseph de repente olhou para Shawn, com uma expressão de pânico que não conseguia esconder.
— Ele acabou enlouquecendo. E na última vez que o vi, ele tinha exatamente aquele sorriso estranho.
— E ainda me disse que voltaria, mais cedo ou mais tarde.