Capítulo 736: Capítulo 736: Calor Repentino

"Fiennes, você vai deixá-la ir assim? Não pensou se foi ela quem vazou a informação?" A voz do outro lado do computador era desconcertante.

You Ran piscou os olhos sem entender. "Fiennes, você também quer me perguntar? Acho melhor perguntar logo." Ela viu um brilho estranho nos olhos de Fiennes e seu coração deu um pulo—será que o projeto foi exposto?

Ela ficou parada, calma, aceitando o escrutínio de Fiennes. O silêncio dele só a deixava mais tensa. Esperou muito tempo sem ouvi-lo falar. Quando estava prestes a quebrar o constrangimento, ele disse lentamente: "Pode ir."

Ele a mandou embora sem nem perguntar? Será que confiava nela? Não, algo estava errado. You Ran não obedeceu; teimosa, encarou-o e perguntou: "Não, quero entender o que é que faz suspeitarem de mim, que quase não saio de casa."

Do computador veio outra risada baixa, estridente e cheia de desdém. Essa risada era diferente da voz anterior—essa foi sua primeira impressão.

Fiennes esfriou e ordenou: "Saia."

"Não! Não vou deixar me acusarem injustamente." Às vezes, sua teimosia era irritante. Recusou-se a sair; para ela, ir embora só pareceria uma tentativa de encobrir algo.

Nesse momento, outra voz soou calmamente: "Isso ainda não tem conclusão, nem provas. Não é conveniente julgar. Não vamos acusar ninguém à toa."

Só essa pessoa não a irritava. Mas antes que pudesse manter esse pensamento por um minuto, ouviu a mesma pessoa rindo: "Se acusarmos a pessoa errada, Fiennes vai fazer um escândalo."

"..." You Ran queria ficar, não só para se livrar das suspeitas, mas também para obter informações em primeira mão e saber como agir.

Mas Fiennes não lhe deu chance. Enquanto ela hesitava, ele a empurrou para fora e bateu a porta de repente. O baque a assustou; seu coração, já abalado, parecia numa montanha-russa.

You Ran franziu a testa e voltou ao quarto. Não precisava trancar a porta—primeiro, porque não adiantava; Fiennes tinha a chave, então trancar ou não era a mesma coisa. Segundo, porque ele não entraria escondido enquanto ela dormia.

Então, não precisava se preocupar com isso. Além do mais, talvez devesse se controlar para não subir na cama de Fiennes tão facilmente. Senão, com certeza seria chutada para fora e jogada do quarto.

Então estavam mesmo suspeitando do projeto. Será que algo aconteceu nos dias em que ela ficou de molho? Será que Li Xiumin agiu? Impossível! As informações que ele tinha eram só sobre a Hongren; ela ainda não tinha entregado os dados de Fiennes para Wumei, então...

Será que...

You Ran queria muito contatar Wumei, mas lembrou-se das câmeras espalhadas pela casa e desistiu. Já estava na lista de suspeitos; se fizesse algo agora, Fiennes a consideraria culpada, e ela não teria como se explicar.

Decidida, deitou-se na cama e, sem querer, bateu no ferimento. Esse descuido dela—quando iria mudar? Sempre rompia a ferida quando estava quase sarando.

Azar, frustração. O que ela fez de errado na vida passada?

Já que Li Xiumin agiu, será que ela precisava acelerar? Tinha que pegar os dados de Fiennes logo.

Para ela, isso era uma tristeza imensa. Não queria trair Fiennes, mas não podia deixar de fazer. Ignorando o ferimento no abdômen, virou-se e deitou de bruços. A dor na barriga não aliviava sua angústia.

Primeira missão, e já tão difícil! Ela realmente não era do mundo deles.

Toda vez, You Ran tentava encontrar um motivo para se aproximar de Fiennes, mas nunca achava um bom—nem mesmo com o ferimento. Enterrou o rosto nos braços. O que fazer para Fiennes confiar nela?

De novo essa pergunta. Já estava enlouquecendo com ela.

"Toc, toc, toc—"

Passos se aproximaram, ecoando no quarto. Ela continuou de bruços, sem levantar a cabeça, fingindo não ouvir nem sentir ninguém se aproximando.

Um olhar cortante caiu sobre ela. Instintivamente, encolheu os ombros. Que aura assustadora—mesmo invisível, sentia um calafrio. Não conseguia mais ignorar a sensação de ser observada como uma presa por um leopardo. Era como se fosse a caça de Fiennes.

Uma pressão sufocante, sem lugar para se esconder.

"Quanto tempo vai ficar me encarando?" You Ran murmurou, de cabeça baixa.

"No que está pensando?" Fiennes perguntou de repente. You Ran piscou, surpresa, e ergueu a cabeça, olhando para ele atônita. Ele faria uma pergunta tão boba? Será que foi trocado? Não deveria perguntar se ela fez algo contra ele?

You Ran se recuperou: "Não estou pensando em nada."

"O ferimento não dói mais?" Fiennes soltou outra frase inesperada.

Ele estava se preocupando com ela? Sabia se importar? Isso não seria um grande avanço entre os dois?

Ela engoliu em seco, incrédula, e piscou de novo: "O que você disse?"

Fiennes franziu os lábios, o rosto esfriou, e disse sem expressão: "Nada."

Que complicado. Ela só não acreditava no que ouviu, por isso quis ver se Fiennes repetiria. Mas, na prática, nem sonhasse com uma segunda vez; ele já tinha dito uma vez com muita paciência e compaixão.

You Ran virou-se, indiferente, e rompeu o ferimento de novo. Fiennes franziu levemente a testa, em silêncio, vendo o sangue escorrer devagar do abdômen dela.

You Ran coçou a cabeça, sem graça: "Dói um pouco, mas aguento. Não tem problema."

"Ainda aguenta?" Sem saber por quê, Fiennes sentiu uma onda no peito ao ouvir isso. Lembrou-se de quando ela se feriu na frente dele, e ele perguntou se doía—ela respondeu igual.

Pensou nela de novo. You Ran.

Fiennes saiu em silêncio, deixando You Ran boquiaberta na cama. Já foi? Ela disse algo errado? Reviu o que falou—não, estava tudo normal.

Pouco depois, quando ela começou a tirar a roupa, deixando-a na cintura, passos pesados soaram do lado de fora. Seu rosto ficou vermelho; não dava tempo de vestir de novo, porque Fiennes já estava na porta. Os passos pararam, e You Ran nem ousou virar.

"Não olhe!" Ela gritou, num tom mimado e severo. Mas não teve efeito nenhum em Fiennes. Ela se debateu, sem conseguir dizer mais nada.

Fiennes, com expressão fria, entrou com o kit de primeiros socorros. You Ran tapou o peito rapidamente, fechando os olhos. De repente, ele soltou: "Não tenho interesse em você."

Nada machuca mais uma mulher do que essa frase de um homem. Ela abriu os olhos de repente, encarou Fiennes furiosa, esquecendo de se cobrir, e apontou o dedo para ele: "O que quer dizer com 'não tenho interesse'? Acha que eu tenho interesse em você?"

"Cala a boca!"

"Por quê? Sai daqui! Vou cuidar do ferimento sozinha. Tenho mais experiência que você."

"Mais experiência?" Fiennes hesitou com a gaze na mão, depois perguntou, sem mudar o tom: "Então você se fere com frequência?"

"Isso não é da sua conta. Já disse, sai! Eu mesma cuido disso. Não preciso da sua falsa bondade."

Fiennes parou por um instante, ignorou a resistência dela, levantou a roupa na cintura e viu a gaze ensanguentada no abdômen—muito visível. Ele disse friamente: "Pare com isso."

"Quem tem que parar é você! Já falei que vou fazer sozinha. Quem mandou se intrometer?" You Ran resmungou, irritada. De repente, teve uma ideia. Aproveitando a compaixão momentânea de Fiennes, disse: "Não pense que não sei. Você está me suspeitando de novo, não está?"

"..." Fiennes pensou por segundos e disse calmamente: "Não."

"Mentira! Seu homem falso! Está sim me suspeitando. Não sei do quê, mas me sinto injustiçada! Odeio ser acusada. Não quero sentir isso de novo!"

As palavras de You Ran tocaram um ponto sensível no coração de Fiennes. Embora ela soubesse melhor que ninguém quem deveria receber essa ternura dele.

"Cala a boca!" Fiennes, irritado com a tagarelice dela, apertou o curativo de repente, fazendo-a gemer de dor.

"O que você está fazendo!" You Ran apoiou os cotovelos na cama, furiosa: "Está me matando de dor!"

Fiennes ignorou os gritos e continuou aplicando o remédio, mas com um pouco mais de cuidado. You Ran não percebeu; só berrava, quase estourando os tímpanos dele.

"Ufa—" Finalmente terminou. O curativo de Fiennes até que era bom, mas a força era descontrolada. Ainda bem que ele não era médico; senão, os pacientes morreriam por causa dele, não da doença!

"Onde vai?" Fiennes guardou o kit, sem olhar para You Ran uma vez, calado. Diante dela, um homem de aparência contida—muito tentador.

You Ran vestiu a roupa devagar, evitando o ferimento. De repente, um sorriso brotou em seus lábios enquanto olhava para as costas que sumiam.

Parecia haver um pouco de calor no peito.