Depois de sair da vila de Yang Jinkuan, Lin Xujia não foi procurar Ye Yunchen. Em vez disso, mudou de ideia e voltou para casa. A madrasta, que ainda morava lá, e a irmã semi-louca a receberam. Assim que ela entrou pela porta, um ovo jogado pela madrasta acertou sua cabeça.
Com um estalo, o ovo se quebrou, e a gema e a clara se misturaram, escorrendo lentamente por sua cabeça. Ela apertou os olhos, deu uma risadinha de escárnio, passou a mão na clara escorregadia como se nada tivesse acontecido e continuou andando para dentro.
— PARE! Quem te deixou voltar? Cai fora daqui! — Mandando eu sair? Você sabe em cujo território vocês, mãe e filha, estão? Ousam me mandar embora? Te aviso: não me provoca, senão posso fazer sua filha passar por tudo de novo. Acredita?
Assim que Lin Xujia terminou de falar, o silêncio tomou conta do ambiente. Até Lin Youran, que estava fazendo barulho, pareceu mostrar um lampejo de medo, escondendo-se atrás da mãe sem ousar olhar para a expressão de Lin Xujia.
Vendo isso, Lin Xujia lançou um olhar gélido para as duas, subiu as escadas sozinha e voltou para aquele lugar que, para ela, era um reencontro há muito esperado. Parou em frente ao espelho, encarando o reflexo desgrenhado, sem saber exatamente o que sentia. Pegou uma toalha e, repetidas vezes, limpou o ovo da cabeça.
Depois, deitou-se na cama e dormiu do dia até a noite. As duas não ousaram subir para incomodá-la, o que era exatamente o que ela queria.
Ela tinha combinado de almoçar com Xia Yan no dia seguinte, mas naquela noite precisava primeiro encontrar alguém.
Lin Xujia se levantou, se arrumou e se maquiou, esperando mostrar seu melhor lado ao homem que amava. Parecia que só uma maquiagem pesada conseguia esconder sua palidez. Escolheu um vestido vermelho de mangas compridas até o meio do braço e calçou saltos altos como os sapatinhos de cristal da Cinderela.
Saiu, pegou um táxi, tudo com calma e ordem.
Lin Xujia não ligou para Ye Yunchen antes; foi direto para a casa dele. Mas, quando realmente parou na porta, hesitou. Seus dedos finos apertaram a bolsa com força, as articulações ficando brancas de tensão. Enquanto vacilava, a porta se abriu de repente.
Ye Yunchen, com dois sacos de lixo nas mãos, olhou surpreso para Lin Xujia, que aparecera de repente. Vendo que ela só o encarava em silêncio, ele passou por ela como se nada fosse, jogou os sacos no lixo do corredor e voltou devagar para frente dela.
— Entra.
Lin Xujia colocou as mãos sobre a barriga, os dedos se entrelaçando em segredo. Respirou fundo e seguiu Ye Yunchen para dentro. A decoração ainda era a mesma. Antes, ela e Ye Yunchen tinham se entregado ali, mas agora tudo era diferente.
Ela sentiu uma pontada de tristeza.
Ye Yunchen parecia estar vendo notícias antes, porque a TV ainda estava no canal de economia. A voz da apresentadora era suave e doce, como um riacho com ecos. De repente, Ye Yunchen desligou a TV, e o som cessou.
— O que você veio fazer aqui? — Só fazia muito tempo que não te via, queria dar uma olhada em você. — Lin Xujia sentou no sofá, sem desviar o olhar de Ye Yunchen, falando pausadamente.
Ao ouvir isso, Ye Yunchen pareceu soltar uma risadinha leve. Lin Xujia não ouviu direito, baixou a cabeça e olhou para os próprios dedos. — Estou falando sério, só queria te ver.
— Lin Xujia, você não esqueceu o propósito de te mandar para perto de Yang Jinkuan, esqueceu? — Ye Yunchen falou friamente.
— Não esqueci, mas aquele Yang Jinkuan não confia em mim, e nem me trata como gente. — E daí? — E daí? — Lin Xujia não entendeu o que Ye Yunchen queria dizer. — Então você não deveria conquistar a confiança dele? Já que diz que ele não confia em você, será que alguém dele te seguiu até aqui? — Ele não mandaria ninguém me seguir. — Lin Xujia falou baixo.
Ye Yunchen pareceu pensar no que ela disse. Fez uma pausa, franziu a testa e olhou para Lin Xujia de lado. — Você já me viu, então não venha mais me procurar à toa.
Lin Xujia franziu a testa e de repente perguntou: — Se eu realmente conseguir a confiança de Yang Jinkuan, o que você vai me mandar fazer? — Falamos disso quando você conseguir. — Ye Yunchen, só tenho um pedido: que você se case comigo. — Casar com você? Você não esqueceu de algo? A única mulher que reconheço como esposa nesta vida é Xia Yan. Se você realmente quer ficar comigo, não me importo de ter você como amante. — Do que é feito o seu coração, Ye Yunchen? — Lin Xujia disse com a voz embargada. — Não vem com essas conversas fiadas aqui. Se não conseguir a confiança de Yang Jinkuan, não precisa mais aparecer na minha frente. — Ye Yunchen, vem aqui uma vez, vou te contar uma coisa. — Lin Xujia de repente sorriu e fez um gesto com o dedo para ele se aproximar. Quando Ye Yunchen se aproximou desconfiado, ela abriu a boca e mordeu a orelha dele.
Ye Yunchen, com dor, empurrou Lin Xujia com força, jogando-a no chão. Com uma mão na orelha sangrando, furioso, sem pensar, deu um tapa no rosto dela com toda a força. Segundos depois, o rosto dela inchou.
Lin Xujia mexeu a boca sem forças, sentindo um gosto de sangue na boca. Já não sabia se era o dela ou o de Ye Yunchen. Talvez, naqueles dias, tivesse sentido tanto cheiro de sangue que já estava anestesiada.
Ye Yunchen, parado na frente dela, parecia não ter saciado a raiva com o tapa. De repente, levantou o pé e chutou a barriga de Lin Xujia. Ela franziu o rosto de dor, soltando gemidos fracos de vez em quando.
A raiva dele só aumentava, até que Lin Xujia desmaiou com as pancadas. Ele parou, pegou algo do sofá para enrolá-la, colocou-a no ombro, saiu, desceu as escadas, virou à esquerda numa viela, largou-a lá e voltou para casa sem olhar para trás.
A brisa da noite, perto do início do verão, não deveria ser fria, mas naquele momento Lin Xujia acordou com o frio e uma dor intensa. Quando abriu os olhos e viu tudo ao seu redor, enlouqueceu.
Abriu a boca e mordeu com força o ombro do homem nu que estava sobre ela, se movendo, mesmo vendo sangue, não soltou. Além do homem em cima dela, havia mais dois bêbados com cheiro de álcool ao lado. Suas expressões bestiais a aterrorizavam e a enchiam de ódio.
O homem que ela mordeu só deu um tapa nela quando terminou, como aviso, e então se afastou, deixando o outro, que já tinha tirado as calças, se aproximar.
Os gritos dilacerantes de Lin Xujia e as risadas dos homens ecoaram a noite toda naquela viela deserta. Parecia que tinha chovido durante a noite, mas ela já não se lembrava direito. Ela foi do inferno ao mundo dos vivos, e do mundo dos vivos de volta ao inferno. Não, na verdade, ela nunca tinha saído do inferno.
Os três homens não se lembrava quando foram embora, deixando-a, com as roupas rasgadas, deitada no chão. O cheiro de umidade do chão depois da chuva a enojava, mas ela se enojava ainda mais do próprio cheiro. Nem a chuva da primavera, que podia purificar tudo no mundo, conseguia lavar a sujeira dela.
O céu foi clareando aos poucos, com um tom esbranquiçado. No horizonte, apareceu um raio de luz da aurora, deslumbrante e lindo, como a luz que aparece quando os deuses surgem nos contos de fadas, iluminando tudo, sagrada e pura.
Lin Xujia, com as roupas rasgadas, vagou pelas ruas antes das seis da manhã. Finalmente chegou em casa. Ficou mergulhada em água fria por tanto tempo que sentiu como se já tivesse morrido.
Ao meio-dia. O sol escaldante batia em todos os cantos de Jiangcheng, mas Lin Xujia ainda sentia um frio intenso, como se estivesse num porão de gelo. Quando chegou ao local combinado com Xia Yan, Xia Yan já estava sentada perto da janela.
— Estou aqui.
Xia Yan viu Lin Xujia se aproximar e acenou. Quando ela chegou perto, notou a maquiagem pesada e vermelha e ficou um pouco surpresa. — Pedi as mesmas coisas que a gente gostava antes, não se importa? — Hum. — Por que você resolveu me procurar de repente? — Xia Yan era assim: quando perdia a confiança em alguém, não confiava mais.
Lin Xujia, com um ar sedutor, pegou o copo d'água, levou aos lábios e deu um gole, deixando uma leve marca de batom vermelho na borda. Colocou o copo de volta com indiferença e disse, com voz suave: — Não fica na defensiva assim. Só te chamei para um papo simples, relembrar o passado. — Relembrar o passado? Se não me engano, já não temos motivo para isso há muito tempo. — Mas você veio mesmo assim, não veio? — Lin Xujia sorriu.
O encontro foi no café em frente ao portão da Universidade de Jiang, um lugar que guardava todas as memórias da época de estudante delas. Fossem boas ou ruins, agora, ao lembrar, as memórias sempre pareciam bonitas.
Xia Yan sentia que Lin Xujia estava estranha hoje, como se realmente, como ela disse, tivesse saído só para um papo. Ao ouvi-la falar sobre o primeiro encontro das duas, Xia Yan também se emocionou um pouco.
— Xia Yan, por que você nunca gostou de Ye Yunchen, mesmo ele sendo tão incrível na escola?
Xia Yan pensou um pouco. Nunca tinha refletido sobre isso. Na verdade, Ye Yunchen sempre foi muito bom com ela, aparecendo quando ela mais precisava, cuidando dela nos mínimos detalhes, mas ela nunca sentiu nada além de amizade por ele.
As duas ficaram em silêncio por um tempo. Xia Yan levantou a cabeça e olhou para Lin Xujia. — Não sei por quê. Talvez a gente tenha destino, mas não amor. Gostar de alguém não é algo que acontece só porque a pessoa gosta da gente.
— É mesmo? O amor é tão simples assim? — Lin Xujia balançou o copo, pensativa. — Não sei. Pelo menos é o que eu penso. Na verdade, cada um tem seu próprio amor. Cem pessoas, cem tipos de amor. — Hã. — Lin Xujia deu uma risadinha, parou de mexer o copo e disse de repente: — Acho que entendi por que você não gosta de Ye Yunchen. — Entendeu o quê? — Xia Yan olhou para Lin Xujia, confusa. — Nada. Quer dar uma volta pela escola comigo? O tempo passou tão rápido, já faz quase dois anos que saímos da faculdade.
Xia Yan não recusou o pedido de Lin Xujia. As duas caminharam pela Ponte da Névoa da escola, passaram pelo campo de trás, atravessaram a alameda arborizada e pararam em frente a um prédio de aulas abandonado há muito tempo.