— Que história é essa? — perguntaram Wen Yibo e Shen Qi ao mesmo tempo.
Liu Yi hesitou, os olhos faiscando, como se quisesse falar algo, mas se conteve.
Shen Qi imediatamente se virou para Wen Yibo e disse: "Yibo, não comi quase nada de manhã, vou almoçar aqui. Você pode dar uma olhada em como está o preparo do almoço?"
Wen Yibo, sendo perspicaz, entendeu na hora. Levantou-se e respondeu: "Claro! Pede o que quiser! Este lugar é pequeno, mas não vou deixar você passar fome! Vou lá ver!"
Assim que Wen Yibo saiu, Shen Qi perguntou a Liu Yi: "O que foi?"
Liu Yi baixou os olhos e disse: "Xiao Qi, você sabe por que sempre gostei de usar roupas masculinas?"
Shen Qi balançou a cabeça: "Não é só uma preferência pessoal?"
"É uma preferência pessoal, sim, mas desde pequena eu sabia que era menina, e ainda assim gostava de roupas masculinas. Você não acha estranho?" Liu Yi deu um sorriso leve, com um traço de amargura no olhar.
Shen Qi ficou surpresa.
Ela conhecia Liu Yi há tanto tempo, mas nunca tinha pensado nisso.
Sempre achou que Liu Yi simplesmente gostava de roupas masculinas.
Como alguns gostam de casas, outros de carros, apenas gostos diferentes.
Liu Yi suspirou e abraçou Shen Qi suavemente.
"Xiao Qi, você sabe por que gosto de boxe?" Liu Yi falou com a voz abafada: "Meninas que praticam boxe são raras, não é?"
"Não é por causa do seu pai?" Shen Qi ficou surpresa de novo.
"Sim e não." Liu Yi disse baixinho: "E você sabe por que, em todos esses anos, meu coração sempre esteve vazio?"
Shen Qi não conseguiu mais ficar parada.
De repente, sentiu uma culpa imensa.
Como melhor amiga de Liu Yi, como sua irmã, ela não sabia de nada!
Que amiga incompetente!
Shen Qi segurou a mão de Liu Yi e disse: "Xiao Yi, me desculpa. Eu nunca te perguntei nada. Foi culpa minha, pode me xingar!"
Liu Yi riu alto: "Bobinha, por que eu ia te xingar? Na verdade, nem meus pais sabem direito disso. Meu pai, você conhece, é um brutamontes, e minha mãe vive ocupada, mal está em casa, o que ela saberia?"
"É verdade, minha madrinha é muito ocupada." Shen Qi comentou com emoção: "Ser famosa também cansa."
"Isso começou na infância." Liu Yi olhou para baixo, mergulhando nas lembranças: "Quando eu era bem pequena, na época em que comecei a ter noção de gênero, eu sabia claramente que era menina, não menino. Minha mãe era tão ocupada que me deixava com a babá, então não sabia onde estava esse limite. Foi nessa época que conheci um menino."
"Quando o vi pela primeira vez, ele era tão frágil. Todo sujo, parecia um cachorrinho de rua. Lembro que eu devia ter uns quatro anos, mais ou menos a idade do Xiao Rui e do Xiao He. Eu era tardia para entender as coisas, muita coisa era confusa e nebulosa. Mas sabia que ajudar os outros era certo. Então trouxe aquele menino para casa. Como quase não tinha ninguém em casa, consegui levá-lo até meu quarto sem problemas."
"Ele estava apavorado. Não quis tomar banho quando pedi, só se encolheu no chão do banheiro, um montinho minúsculo. Puxei ele, enchi a banheira e o lavei. Ele parecia um gatinho indefeso, encolhido, deixando eu lavá-lo sem fazer barulho. Depois de limpo, vi que ele estava cheio de ferimentos. Perguntei quem tinha batido nele. Ele não respondeu. Chamei a empregada para trazer o kit de primeiros socorros e, desajeitada, passei remédio nele."
"No começo, ele cooperava, mas de repente ficou muito tenso. Quando ouviu o relógio bater lá fora, saiu correndo sem pensar. Quando fui atrás, ele já tinha sumido. A segunda vez que o vi foi num beco escuro. Eu estava procurando meu pai por lá e o encontrei. Estavam batendo nele, com um chicote comprido, açoitando seu corpo."
"Ele ficava agachado, segurando a cabeça, sem fazer um som, enquanto aquele homem batia nele sem piedade. Não aguentei ver e mandei o motorista tomar o chicote. Mas aquele homem nos disse que o menino era filho dele, e que estava educando o filho. Naquela hora, queria muito ajudá-lo, mas era fraca demais, até menos que o Xiao Rui e o Xiao He hoje. Só pude vê-lo agachado, apanhando repetidamente."
"Na terceira vez que o vi, perguntei por que ele não fugia. Finalmente ele falou comigo. Disse que tinha vindo com a mãe, que se casou de novo. Se ele resistisse, a mãe dele apanhava. Xiao Qi, você sabe? Naquela época, meus pais ainda se amavam muito. Ouvir aquilo partiu meu coração?" Os olhos de Liu Yi brilhavam com lágrimas: "Naquele momento, entendi que precisava de força. Só tendo força suficiente poderia proteger os outros."
Os olhos de Shen Qi também se encheram de lágrimas. Nunca imaginou que Liu Yi tivesse passado por isso.
"Disse a ele que, no futuro, eu o protegeria. Ele ficou muito feliz, aos poucos se abriu comigo e começou a conversar. Um dia, estávamos andando pela rua e vimos um casamento num hotel. Os pajens usavam terninhos bonitos. Ele olhava para eles com inveja e me disse que, antes de a mãe se casar de novo, também usava roupas tão bonitas. Levei-o correndo até uma loja de roupas perto dali e comprei um terno bonito para ele. Ele tocou a roupa com cuidado, mas não quis vestir. Disse que estava muito sujo, que não merecia uma roupa tão boa."
"Forcei a roupa nele. A alegria nos olhos dele não se escondia. Foi aí que ele me disse que a próxima quarta-feira era o aniversário dele. Descobri que ele era dois anos mais velho que eu. Mas, por desnutrição, parecia mais novo. Disse que na quarta-feira teria um presente para ele. Ele aceitou, muito feliz. Quando nos separamos, fiquei olhando ele ir embora, até sumir de vista."
"Xiao Qi, naquela época, eu não entendia bem o que era gostar de alguém do sexo oposto. Só achava que gostava de vê-lo sorrir. Então, naquele dia, preparei um presente enorme para ele. Queria vê-lo sorrir para mim. Mas, Xiao Qi, você sabe? Quando fui encontrá-lo vestindo um vestido bonito e levando o presente —" Liu Yi de repente perdeu o controle, abraçou Shen Qi e soluçou: "— vi ele quase morto."
O coração de Shen Qi apertou: "Como assim?"
"O padrasto dele, quando bebia, descontava nele. Naquele dia, o padrasto encontrou o terno que ele tinha escondido. Quis pegar para vender e trocar por dinheiro. Ele segurou firme, não deixou. O padrasto não esperava que o filho, sempre submisso, o desafiasse. Bêbado, bateu nele até quase matar. Mesmo apanhando, ele ainda segurava a roupa contra o peito, para não deixar o padrasto levar."